COMPLEXIDADE
E AUTO-ÉTICA
Eis
o momento! Começando nesta porta, um longo e eterno caminho mergulha no
passado: atrás de nós está uma eternidade! Não será verdade que todos os
que podem andar têm de já ter percorrido este caminho?
E
o fim de nossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos. E conhecê-lo então
pela primeira vez. (T.S. Eliot
O
termo latino complexus significa “o
que é tecido junto”. É o cerne da epistemologia da complexidade, proposta
pelo pensador contemporâneo francês Edgar Morin. Com uma vasta bibliografia,
traduzida para diversas línguas ocidentais e orientais, Morin se denomina “um
contrabandista dos saberes”. Teve sua formação nas ciências humanas, sofreu
influência do marxismo e dedicou-se ao estudo de temas como política,
sociologia, filosofia e cinema. Sempre se pronunciou contra qualquer espécie de
injustiça, segregação e ditadura. Combatente voluntário da Resistência
Francesa de 1942 a 1944, foi expulso do Partido Comunista em 1951 ao criticar o
dogmatismo stalinista.
Pensador
crítico, reflexivo e muito produtivo, dedica-se ao estudo da complexidade,
termo que apropriou da cibernética e incorporou à sua obra desde a década de
1960. Em suas reflexões sobre ciência e filosofia, Morin contrapõe-se ao
pensamento reducionista, linear e simplificador. Destaca as relações e dependências
multidimensionais de todos os saberes, tais como a biologia, a antropologia, a
sociologia e a física, e ainda coloca o pensamento mítico-simbólico-mágico
ao lado do racional-lógico-científico.
Morin
entende a complexidade como um tipo de pensamento que não separa, mas une e
busca as relações necessárias e interdependentes de todos os aspectos da vida
humana. Trata-se de um pensamento que integra os diferentes modos de pensar,
opondo-se aos mecanismos reducionistas, simplificadores e disjuntivos. Esse
pensamento considera todas as influências recebidas, internas e externas, e
ainda enfrenta a incerteza e a contradição, sem deixar de conviver com a
solidariedade dos fenômenos existentes. Enfatiza o problema e não a questão
que tem uma solução linear. Como o homem, um ser complexo, o pensamento também
assim se apresenta. Entende Morin (1980, p. 14):
Trata-se
de um pensamento desprovido de certezas e verdades científicas, que considera a
diversidade e a incompatibilidade de idéias, crenças e percepções,
integrando-as à sua complementaridade. “A consciência nunca tem a certeza de
transpor a ambigüidade e a incerteza” (Morin, 1973, p.134). Morin refere-se
ao princípio da incerteza tal como formulado por Werner Heisenberg, físico, um
dos precursores da mecânica quântica. Esse princípio baseia-se na
falibilidade lógica, no surgimento da contradição presente na realidade física
e na indeterminabilidade da verdade científica.
A
base da epistemologia da complexidade advém de três teorias surgidas na década
de 1940: a teoria da informação, a cibernética e a teoria dos sistemas, cujos
impactos e aplicações práticas, no entanto, só se manifestariam mais tarde,
nas décadas de 1960, 1970 e 1980.
A
teoria da informação se ocupa
essencialmente de analisar problemas relativos à transmissão de sinais no
processo comunicacional. A cibernética
é a ciência que estuda as comunicações e o sistema de controle dos
organismos vivos e máquinas em geral. Compreende a idéia de retroação, que
substitui a causalidade linear pela curva causal. Trata-se de uma teoria das máquinas
autônomas, em que a causa atua sobre o efeito, que por sua vez age sobre a
causa. E a teoria dos sistemas afirma
que “o todo é mais que a soma das partes”, indicando a existência de
qualidades emergentes que surgem da organização do todo e que podem retroagir
sobre as partes; mas “o todo é também menos que a soma das partes”, pois
as partes têm qualidades que são inibidas pela organização global. No
conceito de sistema, como compreendido por Morin, está presente a idéia de
rede relacional: os objetos dão lugar aos sistemas e as unidades simples dão
lugar às unidades complexas,
levando em consideração fenômenos como tempo e espaço.
A
complexidade do pensamento leva-nos ao paradoxo do uno e do múltiplo e à
convivência com a ambivalência. Cabe ao homem, por meio do conhecimento,
interpretar os aspectos ambíguos da realidade, sem desconsiderar sua
multidimensionalidade: unidades complexas são multidimensionais.
Como
afirma Morin (2000, p. 55):
A
complexidade humana não poderia ser compreendida dissociada dos elementos que a
constituem: todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o
desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias
e do sentimento de pertencer à espécie humana.
A
complexidade incorpora as noções de ordem, desordem e organização, presentes
em todos os sistemas. Ordem-desordem é uma relação inseparável que tende a
estabelecer a organização. É um processo fundamental para a evolução do
universo e é norteador da relação dialógica e ao mesmo tempo una,
complementar, concorrente e antagônica:
Una (isto é, indistinta na sua origem genésica e no seu caos formador);
Complementar: tudo que é físico, dos átomos aos astros, das bactérias aos seres humanos, precisa da desordem para organizar-se; tudo o que é organizado ou organizador trabalha, nas e pelas suas transformações, também para a desordem (aumento de entropia);
Concorrente: sob outro ponto de vista, a desordem, por um lado, e a ordem/organização, por outro, são dois processos concorrentes, isto é, que correm ao mesmo tempo, o da dispersão generalizada e o do desenvolvimento em arquipélago da organização;
Antagónica: a desordem destrói a ordem organizacional (desorganização, desintegração, dispersão, morte dos seres vivos, equilíbrio térmico) e a organização recalca, dissipa e anula as desordens. (Morin, 1977, p. 80).
O
princípio hologramático apresenta o
paradoxo dos sistemas em que a parte está no todo assim como o todo está na
parte. É a totalidade do patrimônio genético que está presente em cada célula.
Concebe a imagem física do holograma, que concentra em si todos os pontos e é
projetada no espaço em três dimensões. Sua projeção remete-nos à imagem do
objeto hologramático com sensações de relevo e de cor. O rompimento de uma
imagem hologramática não apresenta imagens mutiladas ou fragmentadas, mas
imagens completas multiplicadas.
Morin
(1982, p. 141) cria o termo unitas
multiplex, em que integra termos antagonistas para elucidar a noção de
complexidade:
Ao mesmo tempo, devemos considerar o sistema não só como uma unidade global (o que equivale pura e simplesmente a substituir a unidade elementar simples do reducionismo por uma macrounidade simples) mas como unitas multiplex: também aqui estão necessariamente associados termos antagonistas. O todo é efetivamente uma macrounidade, mas as partes não estão fundidas ou confundidas nele: têm uma dupla identidade própria que permanece (portanto, não redutível ao todo) e uma identidade comum, a da sua cidadania sistémica.
A
complexidade surgiu para questionar a fragmentação e o esfacelamento do
conhecimento, em que o pensamento linear, oriundo do século XIX, colocava o
desenvolvimento da especialização como supremacia da ciência, contrapondo-se
ao saber generalista e globalizante. A complexidade parte da noção de totalidade
e incorpora a solidariedade, colocando, lado a lado, razão e subjetividade
humana.
A
complexidade propõe uma educação emancipadora porque favorece a reflexão do
cotidiano, o questionamento e a transformação social, ao passo que concepções
reducionistas, revestidas de pensamentos lineares e fragmentados, valorizam o
consenso de uma pedagogia que, visando a harmonia e a unidade, acaba por
estimular a domesticação e a acomodação.
Afirma
Morin (1973, p. 145):
Precisamos de ligar o homem razoável (sapiens) ao homem louco (demens), ao homem produtor, ao homem técnico, ao homem construtor, ao homem ansioso, ao homem gozador, ao homem extático, ao homem cantante e dançante, ao homem subjectivo, ao homem imaginário, ao homem mitológico, ao homem crísico, ao homem neurótico, ao homem úbrico, ao homem destruidor, ao homem consciente, ao homem inconsciente, ao homem mágico, ao homem racional, numa cara com muitas faces, em que o hominídeo se transforme definitivamente em homem.
Todos estes traços se dispersam, se compõem, se recompõem,consoante os indivíduos, as sociedades, os momentos, aumentando a incrível diversidade da humanidade...
Isto corresponde bem ao que Marx entendia pela noção de homem genérico, e que se confunde aqui, para nós, com a noção de natureza humana.
O
ser humano é um ser racional e irracional, capaz de medida e desmedida; sujeito
de afetividade intensa e instável. Sorri, ri, chora, mas sabe também conhecer
com objetividade; é sério e calculista, mas também ansioso, angustiado,
gozador, ébrio, extático; é um ser de violência e de ternura, de amor e de
ódio; é um ser invadido pelo imaginário e pode reconhecer o real, que é
consciente da morte, mas que não pode crer nela; que secreta o mito e a magia,
mas também a ciência e a filosofia; que é possuído pelos deuses e pelas Idéias,
mas que duvida dos deuses e critica as Idéias; nutre-se dos conhecimentos
comprovados, mas também de ilusões e de quimeras. E quando, na ruptura de
controles racionais, culturais, materiais, há confusão entre o objetivo e o
subjetivo, entre o real e o imaginário, quando há hegemonia de ilusões,
excesso desencadeado, então o Homo demens submete o Homo sapiens
e subordina a inteligência racional a serviço de seus monstros. (Morin, 2000,
p. 59-60)
A
complexidade, que aceita a incerteza da ciência, a insuperabilidade de contradições,
acolhe o pensamento mítico, que compreende o misticismo, as religiões, a magia
e a dimensão espiritual do ser humano como expressão cultural presente, de
modos diferentes, nas diversas sociedades. Morin compreende a dimensão
espiritual como uma defesa do ser humano contra a morte, que o apavora, e não
como busca de perfeição para atingir, como prêmio, a vida eterna.
O
sujeito, na visão moriniana de complexidade, é aquele capaz de se
auto-organizar e de estabelecer relações com o outro, transformando-se
continuamente. É nessa relação de alteridade que ele encontra a autotranscendência,
superando-se, interferindo e modificando o seu meio numa auto-eco-organização
a partir de sua dimensão ética, que não é imposta cultural ou universalmente
a cada indivíduo, mas reflete as suas escolhas, percepções, valores e ideais.
Trata-se da prática da auto-ética, que inclui uma ética política e pressupõe
a observação de prioridades que Morin chamou de “idéias-guia”. Ele
entende que a ética não se reduz ao aspecto político, do mesmo modo que este
não se reduz à ética; no entanto, a dialógica que compreende a
indissociabilidade e o antagonismo intrínsecos aos dois termos poderá estar a
serviço da humanidade. Para Morin (1998a), as idéias-guia prioritárias são:
1-
Ética da religação, que inclui o que associa, une e solidariza,
opondo-se ao que disjunta, reduz e fragmenta;
2-
Ética do debate, que pressupõe a argumentação e a polêmica, mas
rejeita os meios ilícitos, os insultos e os julgamentos de autoridade;
3-
Ética da compreensão, que permite o conhecimento do sujeito como tal,
fraterniza as relações e procura re-humanizar o conhecimento político;
4-
Ética da magnanimidade, que se contrapõe à vingança, à punição, à
barbárie e à qualquer forma de preconceito, promovendo a clemência e a
generosidade;
5-
Incitação às boas vontades para a salvação dos seres humanos e do
Planeta, incluindo o apelo a todos os sujeitos, sejam eles sapiens
ou demens;
6- Ética da resistência, necessária e fundamental aos tempos de barbárie, como arma para se chegar ao futuro.
A
ética, no entanto, só faz sentido na sua aplicação prática. Nossas atitudes
devem ser amorosas, o que implica cuidado que temos com a vida em suas diversas
dimensões: com nosso corpo e nosso espírito, com o planeta e com o outro.
Exercemos nossa cidadania quando agimos e participamos das tomadas de decisão,
quando somos efetivamente políticos e democráticos, quando tomamos partido e
nos posicionamos crítica e criativamente no espaço que ocupamos, quando
escolhemos – e ao escolher, amamos.
Ao
escrever e refletir sobre essas idéias, nos vem a percepção do outro e o
quanto sua presença e existência ao nosso lado, compartilhada, nos importa.
Será mesmo uma presença compartilhada? Há solidariedade em nossas ações? Se
não podemos ver o outro como um diferente de nós, e por isso, ou apesar disso,
respeitá-lo como sujeito e cidadão terrestre, não estaremos pensando nem
sentindo de maneira complexa.
Uma
ética revestida de complexidade é aquela capaz de ver e compreender o outro
como um ser amado em sua dimensão humana, que pressupõem o entender e o
sentir, o prosaico e o poético, as idéias e os sentimentos. É impossível
fazermos o que não pensamos e o que não sentimos! O ser humano é um sujeito
relacional, vive em comunidade e é dependente; por isso, aceitar o outro e
compreendê-lo de forma amorosa é uma condição ontológica, essencial para a
sua existência.
Mas isso não é o suficiente. Se o mal que sofremos e fazemos sofrer reside na incompreensão do outro, na autojustificação, na mentira a si próprio (self deception),
então o caminho da ética — e é aí que introduzirei a sabedoria — reside no esforço da compreensão e não da condenação, no auto-exame que comporta a autocrítica e que se esforça em reconhecer a mentira para si próprio.
Bibliografia
Morin,
Edgar. 1973. O paradigma perdido: a
natureza humana. 4. ed. Portugal, Publicações Europa-América.
IZABEL
CRISTINA PETRAGLIA.
Pedagoga e Psicóloga.
Doutora em Educação pela USP. Professora e coordenadora do Mestrado em Educação
da UNINOVE. Coordenadora do NIIC – Núcleo Interinstitucional de Investigação
da Complexidade. Autora de livros sobre complexidade.
E-mail — izabelp@spo.matrix.com.br
Nota — Este artigo foi anteriormente publicado em Eccos, revista científica do Centro Universitário Nove de Julho, São Paulo, vol. 2, no. 1, junho de 2000.
http://www.geocities.com/complexidade/izabel.html