Caro Leitor
O tradicional Jornal de Bairro "Gazeta do Ipiranga" convidou Alexandre Rivero para escrever a importante coluna: Caro Leitor .
Rivero é Psicólogo, Especialista Psicologia Clínica, Mestrado em Psicologia da Escolar (USP), Supervisor do Consultório de Psicologia e Ressignificação Humana.
13/08/2010
Hipocondria e Saúde

Danilo Gentili, repórter do programa CQC, da TV Bandeirantes referiu-se ao comentário do presidenciável do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio no debate realizado pela rede Bandeirantes no dia 05/08/2010. Observando a insistência do presidenciável José Serra em tratar da saúde, Plínio afirmou: “Estão vendo porque dizem que o Serra é hipocondríaco? Ele só sabe falar de saúde”. Danilo Gentili disparou "Ei Plínio Arruda depois me ajuda a escrever umas piadas de político. Aquela do Serra hipocondríaco foi muito boa!" É interessante observar que a preocupação com saúde pode ser confundida ironicamente com uma patologia que é caracterizada por uma crença irracional de adoecimento sem fundamento. Uma preocupação obsessiva com doenças e tratamento.
O Correio Braziliense de 15 de junho de 2001 trouxe na coluna Últimas: “Ampliando o teste do pezinho”. Nela consta que “... todos os 26 estados terão redes de triagem neonatal. Isso significa que cada uma das 3 milhões de crianças que nascem anualmente no país fará o "teste do pezinho", hoje feito em apenas 60% dos recém-nascidos. A determinação consta da Portaria 822, assinada pelo ministro da Saúde, José Serra.” Realmente esta noticia se cumpriu hoje em 2010 o teste do pezinho é obrigatório em todo território nacional, e todos os hospitais são obrigados a proceder a este exame.
Queremos presidenciáveis comprometidos com a Saúde, independente do partido político. Se apresentarem uma hipocondria que inspire cuidados e zelo com nossa saúde, ela é muito bem vinda.
Alexandre Rivero
riveroalexandre@hotmail.com
06/08/2010
Até quando?

A revista Time na semana passada focalizou a reportagem de uma jovem afegã que teve as orelhas e o nariz cortados por não seguir o código de conduta do grupo Talibã. A revista esclarece a condição de desrespeito que as mulheres vivem no Afeganistão. A reportagem foi sobre Aisha, uma jovem de 18 anos, que o Talibã determinou a ter o nariz e orelhas cortados por fugir da casa da família do marido, ela era tratada nesta família como escrava e apanhava rotineiramente. O texto explica: “Se ela não fugisse, morreria”. Continua a reportagem: “O cunhado de Aisha a segurou enquanto o marido dela cortou suas orelhas e o seu nariz”, com a aprovação de um comandante local do Talibã. Hoje Aisha está escondida, protegida por guardas armados e recebe ajuda da ONG “Women for
Afghan Women” (“Mulheres por Mulheres afegãs”). Ela irá para os Estados Unidos, fará uma cirurgia de reconstrução de face.
Até quando mulheres terão que morrer a título de que a moral e a honra se estabeleçam? Em alguns países a lei sanciona esta barbárie, em outros a cultura popular incentiva, mas diariamente temos registros de mulheres que são vitimadas de maneira brutal. O resgate e o respeito às tradições, à cultura e ao ordenamento jurídico interno de cada país deve pressupor o respeito à dignidade e liberdade de seus cidadãos. Crenças e valores anti-vida não podem ser acatados como expressões legítimas da cultura peculiar a cada nação, na medida em que agridem os direitos fundamentais da vida e da pessoa humana. É fundamental que as autoridades internacionais e nós o povo na condição de cidadãos mundiais não percamos nossa capacidade de nos indignarmos contra estes atos que agridem a humanidade. Que nossa “ira santa” nos faça utilizar dos meios que dispomos para protestar contra estes
crimes, que agridem os diversos segmentos de “minorias no poder” sejam mulheres, ou crimes por: orientação sexual, raça, credo, opinião ... Lutemos por um mundo onde todos tenham o direito de se manifestar e escolher seus caminhos e que o passaporte da liberdade seja o respeito pelo outro.
Aisha seja bem-vinda a uma nova vida!
Alexandre Rivero ( riveroalexandre@hotmail.com )
30/07/2010

Hoje faz 10 dias que Rafael Mascarenhas (18 anos), filho caçula da atriz da Cissa Guimarães, morreu atropelado por um automóvel num acidente na Gávea, Rio. As investigações informam que o rapaz estava andando de skate no final de um Túnel interditado, a causa da morte de Rafael foi hemorragia interna e politraumatismo. Impossível avaliar a dor da família neste instante, Rafael poderia ser nosso familiar um filho, sobrinho, neto, irmão... É hora de cobrarmos das autoridades pistas de skate, bicicleta e patins para que nossos jovens tenham segurança na prática destas modalidades esportivas. Enquanto escrevia este texto imaginei por alguns instantes nosso querido Ipiranga um bairro de
vanguarda e pioneiro em tantas iniciativas (Independência, Obras Sociais do Conde Vicente De Azevedo, Saída para Santos...) fosse também aqui criada uma pista de skate expressando o respeito dos ipiranguistas para com os jovens e a vida, logo visualizei uma Placa neste Espaço com o nome de “Rafael Mascarenhas”. Esta pista sinalizava educação e respeito à vida dos nossos jovens. Continuei em minha imaginação observando uma bela pista imponente protegendo como num grande abraço estas vidas que gostam tanto de manobras radicais e rodinhas nos pés. Em minha imaginação a pista tinha proteções adequadas, sinalização e equipamento de primeiros socorros. Alguém em casa interrompeu meu vôo mental dizendo: “Alexandre, leia este pensamento de Martin Luther King:
Mesmo as noites totalmente sem estrelas podem anunciar a aurora de uma grande realização”. Para mim era a confirmação de tudo que havia imaginado. Tive a certeza que precisamos de um número muito maior de Pistas de Skate para nossos meninos..., que venha um futuro de maior realização e respeito pela vida.
Alexandre Rivero
( riveroalexandre@hotmail.com )
23/07/2010
Além de Caravaggio queremos Lourenço!

L'Osservatore Romano, do Vaticano publicou em 17 de julho a descoberta de um possível quadro do Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio, na véspera do aniversário de 400 anos da morte do artista, (o quadro pertence aos jesuítas). A tela, chamada Martírio de San Lorenzo, mostra um jovem deitado sobre uma mesa envolvida em chamas, com a boca aberta, expressão de dor e a mão estendida em busca de ajuda. Este quadro evoca o martírio de São Lourenço, ele foi um dos diáconos encarregados de serviço da Igreja em Roma. Muito querido pelo papa Sisti II, estava encarregado de administrar os bens da Igreja e de distribuir os rendimentos aos
pobres. Na perseguição estabelecida pelo imperador Valeriano, o papa foi condenado ao suplício. Passado alguns dias o prefeito de Roma teve conhecimento de que Lourenço era administrador dos bens da Igreja, mandou chamá-lo em sua presença e disse-lhe que estava desejoso dos tesouros da igreja evocando o texto bíblico esclareceu que deveria a Igreja “dar a Cesar o que é de Cesar”; então ordena que todo este tesouro seja entregue ao imperador. Lourenço concorda e afirma que a Igreja é rica, bem mais rica que o Imperador. Solicita um prazo para a entrega do tesouro da Igreja. O prefeito supondo riquezas materiais oferece o prazo de três dias. Lourenço vai ao encontro dos pobres, viúvas,
orfãos, cegos, surdos, mudos, paralíticos, peregrinos e desamparados, para que no terceiro dia fossem à porta da Igreja. No dia e hora marcados a multidão compareceu. Lourenço convidou o prefeito para verificar os tesouros da Igreja: “Eis os tesouros da Igreja: os míseros que levam com resignação a cruz de cada dia carregam o ouro da virtude; são as almas prediletas do Senhor que valem muito mais que pedras preciosas.” O Prefeito irritado com a atitude de Lourenço ordena que fosse cruelmente açoitado. Por fim mandou que colocassem Lourenço numa grelha em brasas. Lourenço vive seu sacrifício por fidelidade e amor a seu ideal. Este martírio ocorreu no ano de 258. Numa reflexão livre podemos pensar que este resgate do
possível quadro de Caravaggio sobre o Martírio de San Lorenzo, neste momento histórico do mundo nos convida a questionar a necessidade de resgatarmos os verdadeiros valores humanos e rever a banalização da vida. Precisamos estabelecer valores e metas a favor da vida com firmeza, mesmo que isso implique em renunciar “as facilidades”. Diante de tantos crimes hediondos e crimes de “colarinho branco” esperamos que o resgate do quadro de Caravaggio represente mais que um resgate de uma obra de Arte, mas o resgate do espírito de Lourenço!
16/07/2010
A força da Seleção Espanhola

No mesmo mês que a Espanha ganha a Copa receberá os presos políticos de Cuba. A Espanha abrigará a Taça e acolherá a Liberdade dos presos políticos. A Igreja Católica tem mediado e anunciado que um grupo de presos políticos cubanos (jornalistas e líderes comunitários) atingirá a liberdade e serão recebidos na Espanha. O dissidente cubano Guillermo Fariñas jornalista e psicólogo ficou 135 dias em greve de fome pela soltura destas pessoas. Guillermo iniciou a greve depois da morte de seu parceiro de luta
Orlando Zapata, que permaneceu dois meses em jejum pelos mesmos motivos que Guillermo Fariñas. O que faz um homem permanecer em jejum tantos dias? Jejuar não é judiar da carne, mas uma maneira de voltar o olhar para algo superior, além do cotidiano. Jejuar é abstinência com propósito. O afastamento das necessidades físicas e a afirmação que existem outros valores, que transcendem o pão. Esta outra ordem nos remete a valores como: dignidade, direito de expressão e liberdade. Guillermo demonstra nesta atitude que ensejar o pão é importante, mas que existe algo fora da lógica material há um anseio no homem em realizar sua potencialidade plena. Nada pode calar este anseio nem mesmo a satisfação das necessidades físicas. Jejuar é mais que um simples protesto, envolve uma fé forte capaz de manifestar esta plenitude
humana. A seleção espanhola venceu “jejuando” da tradicional garra e fortalecendo a técnica apurada, mais que desejo criou condições para viabilizar o sonho de ser campeões. Guillermo mais que o seu sonho pessoal de libertação, intercedeu pela liberdade daqueles que não tem voz com determinação e disciplina em seu propósito, deu ordem de libertação de maneira pacífica e focada. Num mundo onde se faz dieta para a beleza e a moda numa perspectiva do corpo perfeito, o jejum de Guillermo é um ato de amor e liberdade. A vitória da Espanha quebra um tabu, a Espanha pela primeira vez se consagra campeã. A sociedade civil cubana se articula para o respeito das liberdades individuais, hoje Cuba precisa importar 70% do que consome daí o interesse do governo em restabelecer relações políticas e econômicas com a União Européia. A igreja católica tem sido firme para que as forças de repressão
respeitem as Damas de Branco, um grupo de esposas e mães de presos políticos que protestam. A comunidade internacional pressiona, mas dentro deste cenário político, econômico e social é fundamental que em Cuba alguém se determine a “gritar” que a vida é muito mais que alimento. Na vitória espanhola a seleção “gritou” que vencer é muito mais que fúria. O sucesso de Guillermo e da Seleção Espanhola expressam que com determinação podemos converter fragilidade em força.
Alexandre Rivero
09/07/2010
Uso de álcool começa aos 12anos

Segundo pesquisa divulgada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 80% dos adolescentes já beberam alguma vez na vida e 33% dos alunos do ensino médio consumiram álcool excessivamente no mês anterior à pesquisa. Outro estudo, realizado pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) com universitários, mostrou que 22% dos jovens estão sob risco de desenvolver dependência de álcool. Estudos mostram que o álcool para todas as pessoas é negativo, mas o impacto nos adolescentes é muito acentuado, causando comprometimentos em estruturas cerebrais responsáveis pela memória e a aprendizagem. Num corpo jovem pode prejudicar o desenvolvimento sadio. Precisamos urgentemente: pais, educadores, jornalistas, publicitários, autoridades fazermos uma autocrítica sobre a tolerância social na exposição de nossos jovens ao álcool, direta ou indiretamente. Algumas atitudes podem impulsionar o uso de álcool nos jovens: exemplo dos adultos que eles convivem, permissividade de familiares para que os filhos provem nas refeições pequenas doses, propaganda convidando ao uso da bebida com fortes apelos às práticas valorizadas pelos jovens como a associação com o futebol. Alguns setores artísticos contribuem significativamente: através de: músicas, filmes, novelas, programas de tv que encorajam o uso indiscriminado do álcool como uma maneira lúdica e recreacional. No Site da Revista Veja na área de saúde podemos ler que a média para iniciação do álcool é 12,5 anos e foi a família em 46% dos jovens quem ofereceu pela primeira vez o álcool. Sabemos que o álcool produz uma diminuição da censura, inibindo áreas de discernimento no cérebro, facilitando a abertura para o uso de outras drogas. O incentivo do álcool em jovens causa repúdio e deve ser tratado como abuso à vida, por mais que ele esteja revestido de: ingenuidade, boas intenções, brincadeira ou mesmo ignorância. Procure esclarecer seus filhos e alunos porque eles não podem consumir bebidas alcoólicas, enumere os comprometimentos causados na saúde pelo uso de álcool. Busque informar-se e fale com firmeza. A lei prevê que: “ a conduta de vender, fornecer ainda que gratuitamente, ministrar ou entregar, de qualquer forma, a criança ou adolescente, produtos cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica, aqui abrangida a bebida alcoólica, constitui crime, previsto no art. 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente” . Que possamos cerrar fileiras para resgatar nossos jovens deste mal social que cria tantas seqüelas nas nossas famílias.
Alexandre Rivero
02/07/2010
O Milagre Brasileiro

O cabo do Corpo de Bombeiros de São Paulo Roberto de Lima que trabalhou em desastres causados pelas chuvas no Rio de Janeiro, em Santa Catarina, no Maranhão, no terremoto que devastou o Haiti, comparou os estragos das enchentes nos municípios alagoanos com o tsunami da Indonésia. A dona de casa Ione Cabral dos Santos, emocionada lembrou-se do dia em que deixou sua casa, diz que escapou porque ajudou sua filha, que está grávida. “Saí logo com ela quando a água estava começando a entrar em casa. Meu filho decidiu ficar e teve que subir no telhado. Ele ficou das 11 da noite até a manhã do outro dia no telhado.” (Cidade de Branquinha, em Alagoas, a 80 quilômetros de Maceió). Muitos municípios ficaram sem água, eletricidade, atendimento na área de saúde,
alimentos e serviços de infra-estrutura básica, não tendo previsão do restabelecimento desta situação caótica. Mas este homem na foto, este nordestino é um símbolo vivo do brasileiro que pedala em meio as dificuldades com a bandeira brasileira. Sua postura é firme, transparece garra, acostumado a lutar com as intempéries da vida. Ele encarna a fibra de nossa gente, de nosso povo simples, que sente orgulho pelo Brasil, colocando o símbolo nacional em meio à tragédia no lugar de maior destaque e conforto: “o bagageiro de sua bicicleta”. E lá vai nossa bandeira forte, tremulando revitalizada pelo carinho e a confiança de seu povo. Esta gente trabalhadora que carrega a nação a despeito da falta de estrutura, do desamparo institucional, da ausência de serviços de saúde... Este povo não deixa sua bandeira, sua esperança, de união de todos num foco comum a Nação. O milagre brasileiro sempre foi
a nossa gente que qual Fênix renasce das cinzas. Numa faísca semelhante à bicicleta do nosso nordestino se acende e traz vida renovada. Eis que a tragédia se transforma em força motivacional para reconstrução!
25/06/2010
Saramago e Deus

José Saramago morreu dia 18/06, aos 87 anos, após falência múltipla dos órgãos em decorrência de problemas pulmonares e de uma leucemia crônica. O autor de inúmeros livros, ateu, era membro do Partido Comunista Português. O escritor era crítico de Israel no conflito contra os palestinos. Em 2003, visitando São Paulo, disse ao Jornal "O Globo" que os
judeus não merecem a simpatia pelo sofrimento que passaram durante o Holocausto. Achava abusiva a atitude dos judeus em esperar o "perdão por tudo o que fazem em nome do que sofreram no Holocausto". "Eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós", falou o escritor. Em julho de 2009, o escritor falando ao "Diário de Notícias" de Lisboa disse que os portugueses só tinham a ganhar se Portugal fosse integrado na Espanha. Destaque especial para os livros que publicou: "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira","A Jangada de Pedra" e "Caim". Saramago afirma que a Bíblia é um: "manual de maus costumes", "um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana", e que para uma pessoa comum a decifrar, precisaria ter "um teólogo ao lado". Esta imagem forte gerou muita polemica em sua vida literária. Segundo alguns críticos sua briga religiosa deve-se ao fato de
ter nascido num contexto extremamente católico (Portugal) e ter vivido esta conflitiva religiosa entre ter fé e o ateísmo. O cortejo fúnebre do escritor José Saramago partiu da Câmara Municipal de Lisboa, rumo ao cemitério do Alto de São João para ser cremado. O nome deste cemitério nos remete ao Discípulo Amado “João” que escreveu o Evangelho que transpira amor e doçura. João deixa claro seu propósito em Jo 20: 30 “Jesus, na
verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro”; e 31 “estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo tenhais vida em seu nome”. A Ministra da Cultura de Portugal Gabriela Canavilhas, falando de Saramago recordou o homem que "não tinha fé em Deus, mas certamente Deus teve fé
nele." A violoncelista Irene Lima interpretou as peças Sarabanda - o cantos dos pássaros de Bach no funeral de Saramago, este compositor musical que transformou o Cristianismo em Som. Vejamos uma das frases mais significativas de Johann Sebastian Bach: "O objetivo e a razão final de toda música não podem ser outros senão a glória de Deus e a satisfação da alma" (1685/1750); "impossível apreciar devidamente a produção religiosa de Bach sem recordar a sinceridade e a fé inabalável que o caracterizaram". Ele tinha por costume colocar as iniciais J.J. (Jesus, juva -- "Ajude-me, Jesus") no início dos seus manuscritos, os quais terminavam com outras três iniciais: (Soli Deo Glória -- "Glória somente a Deus" ou a "Deus toda a Glória"). "Estas letras, porém, não eram para ele uma simples formalidade, mas a expressão real de sua íntima comunhão com Deus". (BRAGA, Henriqueta Rosa Fernandes.
Cânticos de Natal. Rio de Janeiro: Kosmos, 1954, p. 14).
As cinzas do escritor podem ser divididas entre a aldeia de Azinhaga (cerca de 100 km de Lisboa), onde ele nasceu, e Lanzarote, já que o escritor havia expressado seu desejo de suas cinzas serem depositadas sob uma oliveira na propriedade que morava desde os anos 90. A oliveira em nossa cultura é o símbolo da Paz. No velho testamento o pombo carregando um ramo de oliveira em
seu bico, voltando para a Arca possibilita Noé constatar o fim do Dilúvio e que novamente havia terra para o Homem. (Gênesis 8:11). A oliveira é imortalizada como o símbolo de Paz. Deus cumpre sua aliança com Noé e com toda a humanidade, materializa-se a paz entre criatura e criador. Os símbolos e sinais religiosos parecem permanecer na vida e na morte de José Saramago...
Alexandre Rivero
18/06/2010
O Sagrado de Marcio e Mercia


Ao reconhecer o corpo da irmã, Márcio Nakashima ajoelhou-se à beira da represa e chorou. "O corpo dela já estava em estado de decomposição", disse o diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Marco Antonio Desgualdo.
Márcio ajoelhou-se diante da irmã, o que estaria pensando naquele momento? Como era a sua dor? Que sentimentos afloravam? Talvez neste instante surgissem recordações da infância ao lado da irmã, brincadeiras, festas familiares, mais tarde a adolescência com suas confissões. Quantos sonhos tinham para realizar? Agora a presença da irmã era ausência, apenas o corpo inerte. Márcio sem Mercia, uma parte dele se foi....
Nesta hora o joelho curvou-se diante da impotência, da ira, da injustiça, da perda, da saudade....
Nós estávamos assistindo as imagens na tela da TV, atônitos! O impacto das imagens era mais forte que qualquer comentário jornalístico.
Nos também ficamos ajoelhados através da atitude de Márcio, afinal vivemos as últimas semanas procurando na TV, na internet, nos jornais por informações da jovem advogada. Alguns de nós chorávamos com Márcio outros procuravam resistir, mas lá estava a cena que não queríamos ver!
Passado aqueles momentos fortes, fomos nos recuperando não nos era dada outra opção. Mas como foi importante nos ajoelharmos diante do Sagrado, pois o papel do Sagrado é nos religar a uma nova ordem de significados. Márcio de joelhos diante do corpo de Mercia estava nos religando com valores fundamentais, que por vezes esquecemos ou banalizamos: a vida, a família, o ser irmão, o deixar-se impactar pela violência social, a ânsia por justiça. Manifestava-se outra realidade carregada de valores primordiais, o sagrado precisa por vezes ser suscitado para nossa consciência ser despertada. Estávamos transcendendo do crime hediondo, o noticiário policial para repensar nossas relações sociais, mergulhávamos em princípios eternos como a: valorização da
vida. Compreender o sagrado neste acontecimento nos liberta para algo maior, a imagem de Marcio diante do corpo da irmã, nos remete a Pietà (Piedade) de Michelangelo.
Alexandre Rivero
11/06/2010
Bill Gates e a Fome
“Posso de repente me ver passando o dia com Rahul Gandhi (filho do assassinado primeiro-ministro indiano, Rajiv), que sabe muitas coisas que eu não sei. Ou com o doutor Alonso (Pedro Alonso, médico espanhol), que dedicou sua vida à malária. Uma pessoa extraordinária. Este trabalho tem muita variedade. Aprendo, há grandes desafios e sinto-me bem fazendo isso. Consegui esta enorme fortuna com meu trabalho na Microsoft e não creio que dá-la a meus filhos fosse bom para eles, ou bom para a sociedade... Realmente é um trabalho divertido e me faz sentir bem saber que terá um impacto positivo. A riqueza do que faço me entusiasma todos os dias." Bill Gates falando sobre seu trabalho filantrópico que atinge 100 países,
ele tem dedicado 90% do seu tempo a Fundação Gates e investiu mais de US$ 33 bilhões dos seus bens, para combater a pobreza e a doença. (entrevista dada ao Jornalista John Carlin em Barcelona – 03/06/2010).
A prática do bem produz em quem pratica tesouros, vejamos: constrói relacionamentos de trocas extremamente ricas; cria um sentido para a vida maior, pleno de justiça, bondade e auto-respeito; administrar estes recursos (financeiros, intelectuais, afetivos, físicos ou um mix) revigora energias, cria esperança de um cenário mundial melhor e acima de tudo faz a pessoa sentir-se especial na missão que se propos. Bill Gates está vivendo estes valores e envolveu-se poderosamente com esta prática. Interessante observar: não importa que ele tenha muito dinheiro, pois existem magnatas refratários a esta prática. Da mesma forma existem pessoas com grandes limites econômicos que ajudam retirando do seu
sustento e outros não. Se ele é “Zaqueu” ou a “Viúva do óbulo” não modifica a prática, e nós queremos saudar a todos que se engajam no serviço de promoção ao bem. O jornalista comenta no decorrer da entrevista a performance de Bill Gates falando sobre seu trabalho humanitário: “Tem 54 anos, mas parece possuir a energia vital de um jovem de 24, pronto para devorar o mundo. Dá a impressão de ser um homem satisfeito e feliz.” Mais de 1 bilhão de pessoas sofrem com a fome no mundo, segundo o diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação), Jacques Diouf. No mundo há 1,017 bilhão de famintos, dos quais 642 milhões são da Ásia e do Pacífico, 265 milhões da África, 42 milhões da América Latina e Caribe, e 15 milhões dos países desenvolvidos. Este número esclarece que uma em cada seis
pessoas é atingida pela fome no mundo. O importante é que se faça algo agora, sem delongas: pseudo-intelectualizações ou querendo construir-se proselitismo ideológico-partidário. Queremos ação concreta para extinguir esta chaga no mundo chamada Fome!
Alexandre Rivero
04/06/2010
Não os deixem morrer!
A Afavitam (Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo TAM JJ 3054) realizaram em 29/maio, em São Paulo, reunião sobre as investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal de São Paulo e da construção de um memorial em homenagem às vítimas no local do acidente. Na noite de 17 de julho de 2007 Airbus da TAM não conseguiu aterrissar no aeroporto de Congonhas, atravessou a avenida Washington Luís e chocou-se no galpão da própria empresa, 199 pessoas morreram. Os parentes esperam que o relatório do procurador da República, Rodrigo De Grandis, seja apresentado até julho. Mas para estes familiares é fundamental o Memorial, aliás para todos nós homens de bem e cidadãos deste país é uma questão de honra e memória. Honra porque precisamos lembrar-nos destas vidas
que partiram abruptamente e render-lhes a homenagem merecida. Além disto criar um marco do acontecido para que esta tragédia nos leve a repensar os locais de construção dos Aeroportos, as condições das pistas, o stress que nossos profissionais do ar são submetidos... É preciso criar estes marcos para que nos tornemos melhores, estes acontecimentos marcantes nos levam aprender com nossas experiências. Os monumentos, memoriais, prestação de homenagens são escolas abertas para a comunidade, encorajam o desenvolvimento de nossa inteligência, tornando-nos seres com história e atentos na busca de superar nossas dificuldades. Estas famílias estão gritando e lutando para dar um sentido não para a morte de seus familiares, mas para a vida de seus afetos, são 199 brasileiros que podem permanecer vivos em nossa Memória contribuindo para o aprimoramento da aviação. Autoridades da Iniciativa Privada
e dos três poderes desta República não permitam que eles morram outra vez, agora em nossa Memória. Construam o Memorial Já!
Alexandre Rivero
28/05/2010
Nesta semana em Curitiba a Seleção Brasileira viveu o contrário de 2006 em Weggis, na Suíça, ao invés de invasores de campo e show circense de bola, tivemos jogadores focados em seu treinamento. Dunga tinha uma missão: resgatar a seriedade da Seleção Brasileira. Protestos e ofensas foram dirigidos a ele. Dunga foi tratado como se fosse responsável pela mudança no cenário da preparação da Seleção, enfrentou agressões verbais, mas nada modificava sua determinação em criar foco no treinamento. Em 2006 a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) vendeu ingressos para treinos e inaugurou um carnaval fora de época.
O importante é perceber que não foi o Dunga que estabeleceu esta nova ordem, muito menos a CBF. Existe algo muito maior estabelecendo estes novos parâmetros no mundo. Depois de vivermos a repressão dos costumes, passamos nos anos 60/70 um momento de grande permissividade. A quebra de valores, da autoridade e o medo de uma educação punidora nos empurrou para um “libera geral” ou “é proibido proibir”, isto criou uma desorganização nas instituições e uma contestação sistemática às regras. Vejamos a que ponto chegamos nas Escolas com professores acuados, abrindo mão de sua condição de condutores para serem conduzidos, desmerecidos e agredidos muitas vezes. A partir dos anos 90 começamos a longa caminhada de resgatar valores e compreender a importância da
autoridade, não do autoritarismo. Sinais fortes se manifestaram, indicando que precisávamos de autoridades que nos conduzissem a processos éticos para o encontro da cidadania. Um destes sinais foi o Dr Robert Coles de Havard que escreveu o livro Inteligência Moral (enfatizando a importância da construção de valores nas crianças) foi dos mais vendido para Educadores nos EUA, no final da década de 90. Percebemos que a boa disciplina organiza a produção, cria foco e estabelece auto-estima. Tendo em vista que nosso auto reconhecimento surge na medida em que produzimos de forma significativa com começo, meio e fim. Dunga é cidadão histórico, num determinado contexto cultural. O mérito é que ele não está nadando contra a corrente, mas sim fortalecendo a direção do resgate das instituições, a valorização das lideranças e uma conduta focada em metas
claras. Dunga compreendeu que no mundo pós-moderno temos uma missão fundamental aprender a conviver com transparência, facilitada pelas novas tecnologias da informação e ao mesmo tempo preservar a privacidade pessoal e das organizações. Expõe com firmeza que para sermos bem sucedidos precisamos de direção e decisão. Ele nos ensina de forma positiva que Carnaval tem hora e lugar para acontecer.
Alexandre Rivero
26/03/2010
Isabella Nardoni: Símbolo de Vida
Como uma flor jogada num jardim Isabella foi cortada, machucada, agredida... Seu julgamento foi sem defesa, sua execução inspirada em motivos torpes, seus algozes escondem-se não assumem o crime hediondo...
Nós estamos estarrecidos, chocados! Queremos salvar Isabella, mas ela se foi. Queremos consolar a mãe em processo depressivo, mas não podemos entregar-lhe a filha ao seu colo. Queremos conhecer ao vivo o sorriso lindo de Isabella, que vemos nas fotos da TV e nos jornais, mas ele se apagou para sempre. Estamos impotentes para resgatar Isabella, por mais que assistimos centenas de vezes à imagem do prédio aonde ela foi arremessada, por mais que a editoração gráfica explique detalhes de sua queda! Ela se foi...
Hoje Isabella é um grito, um alerta, um sinal de que a Vida não pode ser banalizada, consumida num “fast-food” e descartada numa lixeira colorida. Pessoas encontram-se entre si, dialogam, tem sentimentos. Pessoas não são para serem navegadas e depois apagar o histórico. Estamos vivendo uma época de navegação em sites, blogs, twiter, Orkut e de tanto navegarmos pela internet, entrando e saindo de páginas, com rapidez e inquietude aprendemos a reproduzir este comportamento em nossos relacionamentos. Uma época de ansiedades e impaciências, cortamos, atravessamos a fala do outro. O descompromisso afetivo é recomendado em modelos sociais, celebridades, numa ação que confunde consumir objetos e consumir pessoas. Adolescentes
são encorajados, por fazedores de opinião pública a viverem uma vida desprovida de valores. Como se desta forma estivessem sendo respeitados no estabelecimento de suas identidades e que a vida seria um grande Shopping em que consumir é a palavra de ordem.
Isabella é um grito que nos faz mudar nossa caminhada de vida: resgatar nossa espontaneidade, acariciar nossos filhos, reaprender a sorrir, entender que somos feitos de carne e carregamos vulnerabilidades. Que vínculos são para serem cultivados. Que sonhamos com um mudo melhor, mais justo, mais terno, mas na primeira esquina quando surge o primeiro obstáculo agredimos no transito, na família ...
Crianças são sinais do Reino de Deus na Terra, pela sua simplicidade, verdade e não objeto de prazer hedonista ou desabafo de agressão patológica.
Hoje Isabella vive na criança que sofre abuso sexual, na vítima de violência doméstica, na que fuma crack, na pedindo esmola num semáforo, na que sofre bullying. Vive no sorriso que se apagou por medo de um adulto, que deveria proteger e cuidar. Isabella não foi embora, ela espera de cada um de nós uma atitude firme para recuperar nossa criança interior, capaz de se indignar com uma sociedade que banalizou a vida.
Alexandre Rivero