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"Não
diga a verdade, minta. Você vai se dar bem. Aprendi isso na escola." Estas
foram as frases de protesto estampadas nas camisetas dos estudantes da Escola
Parque, do Rio de Janeiro. O episódio do colégio carioca que, em abril
passado, expulsou quatro rapazes que assumiram ter fumado maconha durante uma
excursão a Ouro Preto (MG) virou manchete e gerou um pequeno debate: como as
escolas devem lidar com o problema das drogas?
Longe das manchetes, no entanto, a decisão da Escola Parque não é um caso
isolado. O Colégio Palmares, freqüentado por filhos da classe média alta de São
Paulo, também parece ser adepto desse tipo de pedagogia. No começo do ano
letivo, um aluno foi expulso porque teria experimentado um cigarro de maconha
numa festa particular, que não havia relação com a escola.
Em qualquer instituição de ensino minimamente sintonizada com a democracia e
com as modernas teorias pedagógicas, impera o discurso segundo o qual uma das
metas essenciais da escola é ajudar os alunos a desenvolver a consciência crítica
e a enfrentar os desafios e problemas de seu tempo.
Muitos pais - os que podem - pagam caro por isso. Mas a contrapartida nem sempre
é a esperada. No caso específico da relação entre jovens e drogas, a repressão
ainda parece ser a tônica dominante nas escolas, apesar de, em tese, não ser
considerada a melhor atitude pedagógica.
ELIMINANDO
O PROBLEMA.
Para Alexandre
Rivero,
mestre em Psicologia Escolar pela Universidade de São Paulo e professor da
Universidade São Marcos, "o colégio faz a diferença e avança quando
substitui a punição pela reparação, quando dá chances para que o aluno
repare o seu erro".
O Palmares - cujo nome, lembre-se, vem do famoso quilombo, símbolo de luta pela
liberdade - não fala sobre o assunto. CartaCapital procurou a direção da
instituição durante quatro dias e obteve a seguinte resposta da secretária da
coordenação, que se identificou apenas como Mônica: "A minha
coordenadora não vai dar nenhuma informação para vocês. Ela mandou o senhor
publicar as informações que tem". Cabe destacar que, no primeiro contato
telefônico, a mesma secretária confirmou a informação sobre a expulsão do
aluno e, no dia seguinte, a desmentiu.
Mas, nas imediações do colégio, os estudantes não se intimidam ao falar do
assunto. Um aluno de 14 anos revela indignação ao relembrar o caso.
"Trataram ele como um drogado. E ele não é um drogado", afirmou.
"A Zilda (diretora Zilda Zerbini Toscano) justificou a expulsão falando
que você é aluno do Palmares em tempo integral, dentro e fora do colégio."
Três colegas de classe do rapaz expulso, estudantes da 8ª série do ensino
fundamental, também confirmaram a história. Um deles relatou que, pouco depois
da expulsão do amigo, foi realizada uma palestra sobre drogas na escola. Ao ser
questionado se a escola deve expulsar um aluno que se envolve com drogas, o
palestrante, um padre, teria respondido: "Essa é a última atitude que se
deve tomar".
EXPULSÃO
NÃO FUNCIONA.
Outros especialistas concordam que não se resolve o problema utilizando a
chamada pedagogia do avestruz. O coordenador de ensino do Grupo Interdisciplinar
de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) - entidade ligada ao Instituto de
Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP -, Cláudio
Elias Duarte, diz que utilizar apenas a repressão não adianta. "A última
pesquisa feita pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid) em
escolas de 1º e 2º graus de dez capitais brasileiras, em 1997, mostrou que 50%
dos alunos entre 10 e 12 anos já haviam ingerido bebidas alcoólicas. Nossa
legislação proíbe o consumo de álcool por menores. Já imaginou como seria
expulsar todos esses estudantes?", indaga.
Para Duarte, em primeiro lugar, as escolas devem reforçar os fatores protetores
para que seus alunos não tenham contato com a droga, isto porque estudos
comprovam que, quanto mais tarde o adolescente tem contato com as drogas, menos
chances tem de se tornar dependente. Depois, é preciso estar atento aos
primeiros sintomas de uso entre os alunos e, por último, os casos em que o
consumo for confirmado devem ser encaminhados para especialistas.
O professor Alexandre
Rivero
afirma que a palavra de ordem nesses casos é a inclusão. "Escolas não
podem tomar posições mecanicistas, intolerantes, porque estariam tornando-se
meras vendedoras de conhecimento. Se a instituição lava as mãos quando se
defronta com esse problema, joga o adolescente numa região de penumbra da
sociedade e propagar a exclusão é andar na contramão da história."
-por
Rodrigo Haidar
(colaborou Fábio Kadow)