Carta Capital Julho - 2001

PEDAGOGIA DO AVESTRUZ
Colégio de São Paulo expulsa aluno
por ter fumado maconha fora da escola


Crédito: Fotosite

A sombra de zumbi.
As regras valem até longe das salas de aula.Assim se educam as novas gerações

"Não diga a verdade, minta. Você vai se dar bem. Aprendi isso na escola." Estas foram as frases de protesto estampadas nas camisetas dos estudantes da Escola Parque, do Rio de Janeiro. O episódio do colégio carioca que, em abril passado, expulsou quatro rapazes que assumiram ter fumado maconha durante uma excursão a Ouro Preto (MG) virou manchete e gerou um pequeno debate: como as escolas devem lidar com o problema das drogas?
Longe das manchetes, no entanto, a decisão da Escola Parque não é um caso isolado. O Colégio Palmares, freqüentado por filhos da classe média alta de São Paulo, também parece ser adepto desse tipo de pedagogia. No começo do ano letivo, um aluno foi expulso porque teria experimentado um cigarro de maconha numa festa particular, que não havia relação com a escola.
Em qualquer instituição de ensino minimamente sintonizada com a democracia e com as modernas teorias pedagógicas, impera o discurso segundo o qual uma das metas essenciais da escola é ajudar os alunos a desenvolver a consciência crítica e a enfrentar os desafios e problemas de seu tempo.
Muitos pais - os que podem - pagam caro por isso. Mas a contrapartida nem sempre é a esperada. No caso específico da relação entre jovens e drogas, a repressão ainda parece ser a tônica dominante nas escolas, apesar de, em tese, não ser considerada a melhor atitude pedagógica.

ELIMINANDO O PROBLEMA. Para Alexandre Rivero, mestre em Psicologia Escolar pela Universidade de São Paulo e professor da Universidade São Marcos, "o colégio faz a diferença e avança quando substitui a punição pela reparação, quando dá chances para que o aluno repare o seu erro".
O Palmares - cujo nome, lembre-se, vem do famoso quilombo, símbolo de luta pela liberdade - não fala sobre o assunto. CartaCapital procurou a direção da instituição durante quatro dias e obteve a seguinte resposta da secretária da coordenação, que se identificou apenas como Mônica: "A minha coordenadora não vai dar nenhuma informação para vocês. Ela mandou o senhor publicar as informações que tem". Cabe destacar que, no primeiro contato telefônico, a mesma secretária confirmou a informação sobre a expulsão do aluno e, no dia seguinte, a desmentiu.
Mas, nas imediações do colégio, os estudantes não se intimidam ao falar do assunto. Um aluno de 14 anos revela indignação ao relembrar o caso. "Trataram ele como um drogado. E ele não é um drogado", afirmou. "A Zilda (diretora Zilda Zerbini Toscano) justificou a expulsão falando que você é aluno do Palmares em tempo integral, dentro e fora do colégio."
Três colegas de classe do rapaz expulso, estudantes da 8ª série do ensino fundamental, também confirmaram a história. Um deles relatou que, pouco depois da expulsão do amigo, foi realizada uma palestra sobre drogas na escola. Ao ser questionado se a escola deve expulsar um aluno que se envolve com drogas, o palestrante, um padre, teria respondido: "Essa é a última atitude que se deve tomar".

EXPULSÃO NÃO FUNCIONA. Outros especialistas concordam que não se resolve o problema utilizando a chamada pedagogia do avestruz. O coordenador de ensino do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) - entidade ligada ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP -, Cláudio Elias Duarte, diz que utilizar apenas a repressão não adianta. "A última pesquisa feita pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid) em escolas de 1º e 2º graus de dez capitais brasileiras, em 1997, mostrou que 50% dos alunos entre 10 e 12 anos já haviam ingerido bebidas alcoólicas. Nossa legislação proíbe o consumo de álcool por menores. Já imaginou como seria expulsar todos esses estudantes?", indaga.
Para Duarte, em primeiro lugar, as escolas devem reforçar os fatores protetores para que seus alunos não tenham contato com a droga, isto porque estudos comprovam que, quanto mais tarde o adolescente tem contato com as drogas, menos chances tem de se tornar dependente. Depois, é preciso estar atento aos primeiros sintomas de uso entre os alunos e, por último, os casos em que o consumo for confirmado devem ser encaminhados para especialistas.
O professor
Alexandre Rivero afirma que a palavra de ordem nesses casos é a inclusão. "Escolas não podem tomar posições mecanicistas, intolerantes, porque estariam tornando-se meras vendedoras de conhecimento. Se a instituição lava as mãos quando se defronta com esse problema, joga o adolescente numa região de penumbra da sociedade e propagar a exclusão é andar na contramão da história."

-por Rodrigo Haidar
(colaborou Fábio Kadow)

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