HIPERATIVIDADE 

         A cada dia constatamos um crescente número de queixas tanto de professores quanto de pais preocupados com a hiperatividade. Porém, fatores como a indisciplina escolar e a generalização dos “sintomas” (bagunceiro, desinteressado, inquieto, negligente, com dificuldade de aprendizagem, etc.) estão favorecendo às escolas e pais usarem o termo de forma indevida, podendo inclusive ocasionar danos e rotulações em crianças que nada tem à ver com este transtorno. Em contrapartida, segundo Fernando Lage Bastos, muitas crianças que de fato a possuem ficam anos sem serem diagnosticadas corretamente, acusadas de mal-educadas, preguiçosas, avoadas, desastradas, temperamentais, etc., ou o que é pior sendo consideradas como “ele (a) é assim mesmo, é da personalidade dele (a)”, chegando à adolescência e idade adulta, com cada vez mais problemas no ambiente familiar, social e de trabalho por falta de tratamento correto e compreensão dos demais.

         Para diminuir o índice de equívocos (facilmente encontrados em várias partes do mundo), escrevemos esta matéria para que você, leitor, possa conhecer e entender melhor o que denominamos no senso comum por Hiperatividade.

         A Hiperatividade chama-se na verdade Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). Tendo sido várias vezes alterado (desde o início do século XX), este nome tenta comportar as duas principais características das pessoas “hiperativas”, o déficit de atenção – ocasionado pela excessiva distração e pela impossibilidade de focar a atenção em um único estímulo – e a hiperatividade – ou atividade excessiva, não por desobediência mas pela impossibilidade de ficar parado.

         Há autores como Haim Grunspun, Sam e Michael Goldstein (PhD e MD em psicologia e neurologia infantil, respectivamente) que acreditam que a criança só pode ser diagnosticada com TDAH se tiver a hiperatividade como característica básica do comportamento, contrapondo Ruth Ervin, George DuPaul e Fernando L. Bastos que defendem a teoria de que o TDAH possui subtipos onde a criança pode ser diagnosticada mesmo sem a presença do comportamento hiperativo. Mesmo diante destas e outras divergências encontradas na literatura, é possível averiguar dados unânimes a respeito deste assunto como a questão do TDAH atingir apenas de 1% a 3% da população mundial, sendo mais freqüente no sexo masculino do que no sexo feminino (segundo Sam Goldstein a hiperatividade é aproximadamente cinco a nove vezes mais freqüente em meninos do que em meninas). Também é crônico, ou seja, de cada cem crianças que tem TDAH, cinqüenta à sessenta e cinco porcento delas continuarão com o transtorno na adolescência e vida adulta.

         Outros pontos em comum entre os autores são: o fato dos sintomas começarem a aparecer antes dos sete anos e persistirem por um período de no mínimo seis meses até ser possível caracterizá-lo definitivamente e ser constatado que 20% a 30% das crianças com TDAH possuem e, ou, desenvolvem dificuldade de aprendizagem.

Como características básicas do TDAH podemos citar a desatenção e distração, superexcitação e atividade excessiva, impulsividade e dificuldade com frustrações, ou déficit motivacional (esta terminologia foi relatada por Sam e Michael Goldstein no livro Hiperatividade: como desenvolver a capacidade de atenção da criança).

Apesar de todas estas informações, que são obviamente necessárias até mesmo para se pensar que se há até 3% de crianças hiperativas no mundo elas não podem estar concentradas dentro de uma única sala de aula, é necessário entender que as crianças e adolescentes que de fato possuem TDAH podem sofrer mais com a pressão e incompreensão social do que com o transtorno em si, visto que as características acima citadas podem ser observadas em qualquer criança, com a diferença de serem, na criança com TDAH, em intensidade e, ou, quantidade muito maior. As crianças parecem estar “aceleradas”, “viajando”, “distraídas”, ou sempre “desobedecendo”, podem também ser consideradas “desastradas”, “temperamentais”, ou “irreverentes”. Todas estas denominações e outras são geralmente atribuídas as crianças com TDAH, como também podem ser observadas em crianças que nada têm a ver com este transtorno, o que diferencia uma da outra é a quantidade de denominações atribuídas a uma única criança. É exatamente aí que está a dificuldade do diagnóstico correto desta doença.

O diagnóstico deste transtorno é muito delicado e complexo pois passa por várias etapas de avaliação, testagem e observação (principalmente no ambiente familiar e escolar) até se descartar a possibilidade dos sintomas observados serem decorrentes de outras síndromes ou doenças como hipertireoidismo, apnéia do sono, oxiurose, transtorno de ansiedade ou a síndrome de Tourette. Estas entre outras doenças podem ocasionar sintomas similares aos observados pela criança com TDAH, inclusive o próprio TDAH pode ser conseqüência de um destes fatores.

Com tudo isso, o leitor compreenderá que observar o comportamento de seu filho, prestar atenção em sua fala, na lição de casa e nas dificuldades de relacionamento que ele possui pode ser fundamental para que ele seja diagnosticado o mais cedo possível e possa ter um tratamento adequado que possibilite-o adquirir e, ou, aprimorar habilidades fundamentais para poder conviver de forma satisfatória com estes sintomas. É necessário lembrar que em uma quantidade significativa de casos o uso de medicação é necessário, chegando a ser indispensável para que o tratamento tenha sucesso e que a criança possa se desenvolver de forma satisfatória em todas as suas dimensões.

Em caso de dúvida, não deixe para depois, qualquer tipo de doença se tratada desde o início tem maior possibilidade de sucesso no tratamento, isto se aplica também no caso do TDAH que pode, se não diagnosticado no início, ocasionar comorbidades como depressão, ansiedade e até outros transtornos como o transtorno desafiador opositivo ou o transtorno de conduta, visto que crianças com TDAH possuem maior dificuldade de relacionamento e são constantemente criticadas por seus modos e pela sua impossibilidade de agir como as demais crianças de sua faixa etária, além de outros fatores psicológicos.

Por último, e o mais importante, caso você leitor possue ou conhece uma criança que se “encaixou” neste texto, não se critique ou julgue a família, primeiro porque pode não ser, segundo porque estudos científicos vêem comprovando que as causas da doença são neurobiológicas, ou seja, conflitos familiares ou ambientes que julgamos desfavoráveis não ocasionam o aparecimento do transtorno, o que não significa que não possam potencializar os sintomas. Portanto, caso tenha qualquer tipo de dúvida com relação a esta doença procure um psicólogo de confiança, mas lembre-se: este não é um trabalho isolado, para um bom diagnóstico será necessário o auxílio de outro especialista como por exemplo o médico e, ou, o psiquiatra.

Psicólogas: Márcia Guedes Venturini e Alessandra Lima Moreira