Férias e Renovação

Texto Publicado no Jornal O Carpinteiro dia 29/08/2003

 

Na sala de estar Cândida sente o peso dos dias de ausência de trabalho, sozinha levanta-se e vaga pela casa ansiosa, sentido-se solitária, as horas passam como um desfile em câmera lenta, numa repetição aflitiva. 

Cláudio inscreveu-se na busca de férias e nega-se a compartilhar com amigos e familiares, acreditando que descanso é desertar das tarefas cotidianas e da vida comunitária, fechando-se num isolamento inclusive de si mesmo, dormindo e passando horas diante da tela da televisão.

Ana Maria utiliza seu abono de dias de trabalho na busca de consumir férias: viaja, passeia, compra compulsivamente, para sentir-se fazendo algo. Entretanto cansa-se mais do que se estivesse em jornada de trabalho.

Pedro descobre na ausência de trabalho como esmagadora pressão de ansiedade, pois teme que a organização que trabalha o substitua ao retornar o trabalho.

Tito de 7 anos brinca em casa sozinho, sem amigos vendo-se obrigado no recesso escolar de conviver com adultos que não oportunizam um tempo de convivência com ele.

 

Férias é tempo de retirar-se dos afazeres para refletir, pensar nas atividades desenvolvidas, perguntar-se como seria possível desenvolvê-las de outro modo. Ponderar a sua caminhada frente à vida, o sentido que você vem dando a sua existência, o que esta tornando sua vida especial para você e aqueles que convive.

Férias é tempo de construir outras oportunidades de viver, que no dia a dia muitas vezes não temos ocasião de experimentar. Retomar contatos, resgatar relações, recuperar nossas propostas de vida esquecidas no “ruído” das cobranças cotidianas.

Férias é tempo de contemplar o nosso redor, nossos amigos, a natureza, detalhes que passam desapercebidos, insistir que é preciso sensibilizar-se para a “poesia” não só para “prosa”. Recuperar o novo, o diferente, superar a mesmice e o linear.

Férias é tempo de pensar nossas metas de futuro, aspirações pessoais e as de nossa comunidade; afirmando nossa identidade e cidadania.

 

As escolas e famílias precisam educar nossas crianças e jovens para aprender a lidar com as férias, com o lazer, com o lúdico, enfim com a diversidade. Ainda carregamos crenças de que férias é tempo de nada fazer, muitas vezes somos cuidadosos em planejar nosso trabalho, nossas tarefas familiares, nossas responsabilidades econômicas e magicamente acreditamos que o momento de lazer deve acontecer de forma espontânea sem envolver preparo e dedicação. Este descuido traz conseqüências menos felizes de tédio, vazio, cansaço, depressão e impotência de gerenciar nosso tempo de férias. Muitas pessoas sentem dificuldades de lidar consigo próprio num período mais livre, pois não aprenderam competências de convivência intrapessoal. Aprender a entrar em contato consigo mesmo, auto-monitorar-se para descobrir seus interesses e  organizar seu tempo livre. 

 

Férias é convite de transcender do “feijão” para o “sonho”, manejar nossas potencialidades adormecidas, encontrar o nosso “outro” em nós mesmos.

Procure nas férias viver novas habilidades, mesmo que a princípio este novo gere ansiedade. Busque superar as falsas alegações de impedimentos de toda a ordem para descobrir outras maneiras de revelar a vida em você mesmo, aprendendo com a vida.

 

Despertar chances é criar as condições da transformação, Leonardo da Vinci acreditava que o homem poderia voar, desenvolveu teorias de vôo, construiu equipamentos para vôo humano que lembravam asas dos pássaros e desenhou projetos de hélices. As criações de Leonardo da Vinci foram tão avançadas que somente dezenas ou centenas de anos depois de sua morte puderam ser utilizadas. Férias é tempo de repensar a vida, imaginando e envolvendo-se com ambientes futuros e motivadores, talvez estes recursos exercitados hoje você venha a utilizar mais adiante, aperfeiçoando seus relacionamentos e atividades.

 

Você pode buscar a Vontade dentro de você mesmo, como impacto determinante para a ação e construir Férias de enriquecimento e ruptura de hábitos que induzem à mesmice, flexibilizando sua percepção e contemplando o novo. A análise psicológica do pensamento cristão nos leva a constar que esta forma de refletir para renovar é própria do Cristianismo e encoraja transformações profundas nas pessoas. Vejamos na época em que Cristo viveu o padrão acusatório (Ex: apedrejamento / punição física) é revisto sendo assinalado por Ele o valor da compreensão e da mudança do ser, o espírito de raça tão reforçado pela tradição vigente é substituído pela convivência e partilha universal (católico significa universal, derivado do grego Katholikós), os momentos de perda de esperança com conseqüente desespero é substituído pelas propostas de bem-aventuranças (estabelecimento de um sentido de vida além dos limites da experiência presente). Portanto é possível quebrar velhos hábitos, paradigmas, pensamentos e criar novas interpretações da realidade.

 

As instituições também precisam de férias, não de cessar o trabalho, mas períodos de aprender a fazer suas atividades de outra maneira, no Consultório de Psicologia e Resignificação Humana nestas férias queremos aprender a contribuir com as Irmãs Missionárias Beneditinas de Tutzing que mantém a Creche Marieta Morse, temos trabalhado junto com Ir Iraci Sant'Ana neste projeto de divulgar a Campanha da Creche, que precisa permanecer forte para cuidar das nossas crianças.

Que suas férias celebrem a renovação e a oportunidade de resignificar a vida e recuperar seus sonhos mais legítimos guardados em seu coração.

 

Alexandre Rivero é Especialista em Psicologia Clínica, Mestre em Psicologia Escolar e Supervisor no Consultório de Psicologia e Resignificação Humana. Rua Bom Pastor, 1715 Ipiranga – Fone: 2274-8217  www.oconsultorio.com