A Visão Sistêmica em Psicologia

Alexandre Rivero

 

Sonhamos com representações sócio-culturais e históricas. A cultura sonha transformar o biológico. A natureza nos possibilitou sonhar de forma cultural, expressando ela mesma e transformando-a. 

O pensamento sistêmico lança luz à Psicologia, promovendo a revisão de conceitos rígidos, visões dicotômicas e reducionistas. Construindo um leque muito maior de possibilidades de entendimento do homem. A compreensão abrangente dos fenômenos psicológicos não pode isentar um olhar de ciência aplicada, ou estaremos em risco de uma produção ensimesmada e estéril. Pensamos a Psicologia como ciência que deve fornecer subsídios para a educação, clínica, instituições sociais; criando um ambiente promotor de desenvolvimento da vida humana. Ser abrangente, sistêmico na abordagem de estudo não se confunde com “retórica estéril” ou “infertilidade reflexiva”.

A dicotomia e a fragmentação como práticas mecanicistas, criam a falsa concepção de organização das informações e o pior a idéia de entendimento simplista de fenômenos altamente complexos.

A Psicologia fragmentária em modelos estanques construiu a idéia das instâncias da psique como partição do psiquismo em regiões, “lobotomizando” o sistema psicológico do homem. Vejamos o modelo Psicanalítico com o Id enquanto princípio do prazer, representando a natureza “in natura”, o Ego o princípio da realidade, o mediador entre as forças biológicas instintivas do ID e o Super Ego a instância cultural, princípio da moral. Esta concepção acredita num biológico puramente “biológico”, num sócio-cultural legitimamente “sócio-cultural”. Ignorando processos extremamente ativos como a filogênese, a história do patrimônio da origem das espécies que envolve a ação poderosa da cultura, da sociedade alterando ao longo dos milhares de séculos nosso DNA, plasmando o DNA através das intervenções histórico-sociais alterando as funções cognitivas e refinando o córtex cultural ou neocórtex. A compreensão do biológico como expressão acultural, asocial, atemporal, é negar a evolução da vida humana no planeta enquanto espécie. Construímos arquétipos fundamentais, mitos e metáforas para viver estes arquétipos numa dança “transcultural”. A estrutura fundamental do arquétipo é restabelecida e reorganizada ao longo da filogênese. Entretanto o cultural se desenvolve a partir do biológico, estabelecendo este último limites e possibilidades de trocas culturais e realizações da produção sócio-histórica. O cultural não existe solitariamente, mas sim solidariamente com um corpo que encarna o verbo, a linguagem, a cultura. Pensar o homem em complexidade sistêmica é superar a visão simplista de um corpo matéria, biológico e uma mente cultural-social. Enfim nos livrarmos de vez do cartesianismo, da separação mente-corpo.

O homem é biológico “e” cultural, impossível tentar compreendê-lo como “ou”. A todos os instantes encarnamos a interação bio-cultural, até mesmo o que foi chamado de instinto ou pulsão, encarna transformações culturais dos agrupamentos humanos com seus valores e costumes, que foram visitados pela vida na construção filogenética. Mutações anatômicas e fisiológicas de nosso corpo comprovam as experiências culturais de nossos antepassados buscando de forma integrada adaptar-se ao meio, num processo ativo e inteligente, e cumprir nossa vocação gregária de conviver e relacionar-se com o grupo, criando representações simbólicas, interiorizando ações e experiências diversas com o ambiente externo. Esculpimos em nosso corpo a história da humanidade, as diversas passagens do desenvolvimento e expressamos no Planeta nossas experiências na forma da produção cultural.

Somos um sistema vivo complexo. Dialogamos interativamente com nossa natureza e cultura, mais que conflitos dicotômicos entre corpo e mente social, interagimos sistêmicamente com o biológico, que também é cultural nas entranhas da transformação filogenética e com a cultura que também é estabelecida nos limites do biológico. 

Alexandre Rivero é Psicólogo, Especialista em Psicologia Clínica, Mestre em Psicologia Escolar e Supervisor no Consultório de Psicologia e Resignificação Humana. Rua Bom Pastor, 1715 Ipiranga – Fone: 2274-8217  www.oconsultorio.com