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Carreira
Nas asas da imaginação
Françoise Terzian
Por medo de viajar de avião, muita gente pôs a vida
profissional em risco. Mas a boa notícia é que essa fobia tem cura
Em um dos rotineiros vôos da ponte aérea Rio–São Paulo, uma das
passageiras chora de forma descontrolada. Nem o vizinho da cadeira ao
lado, nem a aeromoça e muito menos o piloto conseguem acalmá-la. Por
mais que toda a tripulação tente explicar que está tudo sob controle, a
moça não consegue tirar uma idéia fixa da cabeça: o avião vai cair.
Esse drama vivido por Sheila Andrade, gerente de produto júnior da Kenzo
Parfums, aflige cerca de 40% dos passageiros brasileiros, segundo informações
do Instituto de Psicologia e Pesquisa para o Medo de Voar (Condor). O alto
número de pessoas que sofrem da chamada “fobia de avião” preocupa
psicólogos e psiquiatras, já que o medo é prejudicial à saúde física
e mental. E o pior: além de atrapalhar a vida pessoal, esse medo também
coloca em risco a trajetória profissional.
Funcionária de uma das empresas do grupo LVMH (Louis Vuitton-Möet
Hennessy), Sheila tem uma agenda profissional agitada, que inclui quatro
viagens internacionais e seis nacionais por ano. Apesar do medo, a gerente
conta que faz de tudo para cumprir com seus deveres profissionais. “Vou
sempre, mesmo que isso implique sofrimento”, conta. “Minha ambição
é maior do que o meu medo.” Em relação às viagens a passeio, já não
dá para dizer o mesmo. “Cheguei a recusar uma viagem a Portugal com a
família do meu namorado e de visitar minha avó no Nordeste”, lembra
ela. Da última vez que foi ver a avó, Sheila demorou três dias para
chegar de carro. Trocar o transporte aéreo pelo terrestre é uma prática
recorrente. Mesmo com a passagem em mãos, Sheila prefere ir de São Paulo
ao Rio de Janeiro pela estrada. No ano passado, durante uma viagem para
Orlando (EUA), outro episódio parecido aconteceu. Sheila voou até Miami
e, de lá para Orlando, ela conseguiu convencer as três amigas a ir de
carro para a cidade. “O que me dá medo é a probabilidade de acontecer
comigo.”
Só de ouvir falar em avião, Sheila confessa ficar gelada. Esse medo de
voar tomou proporções maiores depois de um acidente com um avião da
companhia norte-americana TWA, em julho de 1996, que matou 230 pessoas.
“Nessa época, além de ficar sensibilizada com a notícia, eu voltava
da minha primeira viagem à Europa. Logo depois da decolagem do vôo
Zurique–São Paulo, uma tempestade causou instabilidade na aeronave.
Todos se entreolharam e eu comecei a ficar em pânico.”
calmantes – Quando precisa viajar, a ansiedade e o medo tomam conta de
Sheila logo na manhã da viagem. “Nesse dia, só costumo tomar o café
da manhã. Depois disso, não como mais nada.” Dentro da aeronave,
comer, beber, ouvir música, ler revista, assistir a filmes e bater papo são
atividades inexistentes durante a viagem. “Fico petrificada de medo, não
consigo falar ou descontrair e não tiro o cinto por nada.” Para
minimizar seu sofrimento, Sheila costuma apelar para os calmantes quando
faz viagens internacionais. Ela ingere um comprimido três horas antes do
embarque e outro poucos minutos antes de entrar no avião. Os vôos
nacionais, por sua vez, são responsáveis pelo maior transtorno. “Como
a viagem é rápida e sigo para reuniões depois, é impossível tomar
calmante.” Resultado: o sofrimento aumenta.
Outro profissional que briga contra esse medo é Maurício Gomes,
gerente-comercial da empresa norte-americana de tecnologia Progress. Ele não
sabe explicar a fobia que sente na hora em que o avião pousa e decola.
“Não tenho medo de avião, mas nesses momentos eu fico muito
nervoso.” A mão sua, o frio sobe pela espinha, a barriga dói e a
adrenalina toma conta do corpo. “Ninguém vê, não deixo transparecer,
mas meu subconsciente sempre me lembra que esses são os momentos de maior
risco de acidente”, conta ele. “A sensação é de total impotência.
O avião fica na mão de uma pessoa que você nem sabe quem é.”
Para acentuar o problema, o executivo viaja de avião de três a quatro
vezes por semana para visitar clientes em Porto Alegre, Salvador e Belo
Horizonte. “Como eu sei que essa fobia é um fator limitante na vida de
um profissional, viajo sempre que necessário.” Por mais paradoxal que
pareça, Maurício é adepto do rapel, esporte radical que o faz ficar
pendurado a alturas de até 100 metros. Mas essa é justamente uma faceta
da fobia, conforme explica o psicólogo Alexandre Rivero,
professor de psicologia do desenvolvimento da Universidade São Marcos e
diretor da Clínica de Psicologia e Ressignificação Humana. Ele diz que,
primeiramente, é necessário entender o significado da palavra fobia.
“Fobia é um medo persistente, irracional e desproporcional”, define
ele. “É uma forma de medo intensa em relação a um objeto específico.”
tragédias – Para evitar maior estresse durante as viagens, Gomes diz
que sempre tenta encarar tudo com bom humor e uma oração antes da
decolagem. “Tento trabalhar esse medo, mas o problema é que fico muito
incomodado com esses acidentes aéreos.” Foi exatamente depois de uma
dessas tragédias que seu medo cresceu. “Eu tinha um amigo de infância
e três conhecidos da empresa naquele vôo da TAM que ia de São Paulo
para o Rio (o acidente aconteceu em outubro de 1996 e matou 99
pessoas)”, recorda ele.
Diferentemente de Gomes, há casos de pessoas que quase perderam o emprego
por causa da fobia de avião. Márcia Weiser, 27 anos, gerente de pré-vendas
da Avaya Communications, conta que chegou a pedir demissão por medo de
encarar um vôo. O episódio ocorreu na época em que ela trabalhava na
Lucent Technologies, empresa que originou a Avaya, e para a qual teria de
fazer uma viagem de avião a trabalho. “Um dia antes da viagem, fiquei
muito nervosa e, só de pensar em voltar a entrar no avião, cheguei a
pedir demissão”, lembra ela.
Graças ao “chacoalhão” que levou do diretor-geral da empresa, que
havia pedido para ela se acalmar e lembrar da carreira brilhante que teria
pela frente, Márcia decidiu procurar ajuda. Depois de um tratamento que
uniu terapia e antidepressivos, ela venceu o medo.
Hoje, a jovem profissional voa sem problemas e chega até a acalmar outros
passageiros fóbicos. “Antes eu tinha vergonha de falar sobre o assunto,
mas hoje sinto orgulho”, comemora. “Fico feliz porque a empresa foi
legal comigo. No começo, eu escondia o medo e tentava trocar as viagens
com um colega, mas daí a notícia vazou, se espalhou e acabei obtendo o
apoio da chefia.”
As gêmeas Maria Sylvia e Maria de Lourdes Esteves de Medeiros, de 48
anos, levam vidas completamente diferentes, mas têm uma forte semelhança
que está além da aparência: o medo de voar. Maria Sylvia é psicóloga
e moradora de São Paulo, enquanto Maria de Lourdes é médica e vive em
Araçatuba, no interior. O mais curioso é que, apesar da paúra, elas
viajam há dez anos com toda a família para os Estados Unidos. O passeio
de férias começa com as gêmeas tomando calmante na sala de embarque.
“Começo a ficar atormentada 15 dias antes da viagem”, conta Maria
Sylvia que, mesmo depois de dois anos de terapia, não conseguiu superar o
medo. Ela suspeita que a origem do medo possa estar relacionada a uma
viagem que fez quando seu filho tinha 3 meses de idade. A idéia de
afastamento de certa forma pode ter-se associado ao medo de voar. Maria de
Lourdes, por sua vez, conseguiu vencer algumas barreiras e hoje diz se
controlar mais. “Já tive mais medo, mas ainda continuo não gostando de
voar.”
O psicólogo Alexandre Rivero explica que,
quando a fobia se manifesta, a pessoa acaba perdendo o controle da situação.
Isso faz com que ela apresente sintomas como aceleração dos batimentos
cardíacos, suor, secura da boca, tensão muscular e tremores.
“Consideradas normais, essas reações visam a proteger o corpo do
homem”, explica ele. “Essas mudanças são positivas mas, se você
começar a sofrer isso cotidianamente, pode acabar desenvolvendo diabetes
(ocasionada pelo aumento de glicose no sangue) e problemas no coração
(taquicardia)”, alerta o psicólogo.
Toda essa mudança no metabolismo humano pode acontecer por várias razões.
Segundo Rivero, uma delas está ligada à infância.
“É uma espécie de crença disfuncional que acompanha o indivíduo desde
cedo. Ele cresce ouvindo falar que avião é um meio perigoso”, explica
ele. “Isso fica dormindo dentro dele e um dia o gatilho dispara.”
Outra possibilidade é a chamada psicodinâmica, na qual a fobia pode
representar um símbolo. “O medo de avião pode, para algumas pessoas,
estar relacionado a altura, liberdade e ascensão social.”
Para o psiquiatra e terapeuta Márcio Bastos Silveira (responsável pelo
tratamento de Márcia Weiser), a fobia de voar pode estar ligada à
claustrofobia, ao medo de sair do chão, entre outras possibilidades.
“Traduzindo: fobia é uma expressão técnica que significa medo do
medo.”
imagens – Para quem sofre desse problema, o psiquiatra sugere a busca de
tratamento adequado assim que a pessoa começar a se sentir incomodada.
“O tratamento ideal deve trabalhar com medicação e terapia”,
explica. “As duas isoladas não fazem o efeito desejado.” Geralmente,
o remédio adotado é um antidepressivo e o tempo de tratamento varia de
seis meses a um ano.
Já o médico-psiquiatra do Ambulatório de Ansiedade do Instituto de
Psiquiatria (Amban) do Hospital das Clínicas, Tito Paes de Barros Neto, não
trabalha com medicamentos para tratar a fobia. Terapia, exposição
(enfrentar o medo) e exercícios mentais de des-
sensibilização são as melhores maneiras de superar o medo, segundo o médico.
A última medida consiste em fazer com que o paciente mentalize imagens em
que vai até a sala de embarque, depois até a escada da aeronave e até
alçar vôo. Um trabalho semelhante ao que as mães fazem com crianças
que têm medo do mar. Levam o filho até a beira, molham seus pezinhos e
assim vai.
Quanto às causas que levam ao medo, Barros Neto acredita que uma educação
equivocada, a genética (o médico ressalva que não há nada comprovado)
e a aprendizagem por modelação (quando há cópia do comportamento)
podem ser as principais explicações para a fobia de voar. “O curioso
é que a maioria das pessoas com medo nunca voou ”, lembra.
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De bike é pior
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Transportes responsáveis pelo
maior índice de acidentes
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Rodoviário
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38,70%
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Barco
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0,78%
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Bicicleta
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0,67%
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Aeronáutico
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0,08%
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Ferroviário
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0,03%
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Instituto especializado
Criado com o objetivo de ajudar os passageiros com medo de voar, o
Instituto de Psicologia e Pesquisa para o Medo de Voar (Condor) foi
fundado em 1998 por profissionais da Varig acostumados a trabalhar no ar,
como Rosana D’orio, psicóloga, comissária de vôo durante 19 anos e
assessora da chefia dos comissários; Roseli Moreira, gerente
do centro de treinamento de comissários, e o piloto Emerson Sousa.
Reconhecido pelo Conselho Regional de Psicologia (SP), o instituto tem
como objetivo desmitificar o medo de voar. “Trabalhamos o real e o
imaginário da pessoa, fazendo com que ela entenda a parte técnica da
aeronave e trabalhe o psicológico”, conta Roseli.
Durante os tratamentos – de 20 horas e 40 horas –, os profissionais do
instituto abordam desde as funções de uma aeronave (identificam barulho,
turbulência e tiram dúvidas) até a parte psicológica (com técnicas de
relaxamento e um trabalho breve de psicoterapia). O tratamento é
encerrado com um vôo até o Rio de Janeiro e o curso é oferecido em São
Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.
No fim do tratamento, garantem os fundadores, 88% das pessoas se recuperam
do medo de voar, sendo que metade desse número ainda conse-gue obter
prazer. O instituto Condor já atendeu 200 pessoas.
Dicas para enfrentar
a fobia de avião:
- aprenda a enfrentar o objeto temido (a ansiedade pode aumentar, mas o
medo vai diminuir)
- tente normalizar a respiração, que em momentos de nervoso fica curta e
acelerada
- questione suas crenças
- construa um filme na sua cabeça (ensaie passo a passo toda a viagem,
desde a chegada na sala de embarque até a aterrissagem)
- respire fundo e tente relaxar
- ouça música suave
- não divida o mérito de um vôo bem-sucedido com o calmante
- não trate a situação de forma catastrófica
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