Melhor Vida & Trabalho Junho - 2001

Carreira

Nas asas da imaginação

Françoise Terzian

Por medo de viajar de avião, muita gente pôs a vida profissional em risco. Mas a boa notícia é que essa fobia tem cura  

Em um dos rotineiros vôos da ponte aérea Rio–São Paulo, uma das passageiras chora de forma descontrolada. Nem o vizinho da cadeira ao lado, nem a aeromoça e muito menos o piloto conseguem acalmá-la. Por mais que toda a tripulação tente explicar que está tudo sob controle, a moça não consegue tirar uma idéia fixa da cabeça: o avião vai cair.
Esse drama vivido por Sheila Andrade, gerente de produto júnior da Kenzo Parfums, aflige cerca de 40% dos passageiros brasileiros, segundo informações do Instituto de Psicologia e Pesquisa para o Medo de Voar (Condor). O alto número de pessoas que sofrem da chamada “fobia de avião” preocupa psicólogos e psiquiatras, já que o medo é prejudicial à saúde física e mental. E o pior: além de atrapalhar a vida pessoal, esse medo também coloca em risco a trajetória profissional.
Funcionária de uma das empresas do grupo LVMH (Louis Vuitton-Möet Hennessy), Sheila tem uma agenda profissional agitada, que inclui quatro viagens internacionais e seis nacionais por ano. Apesar do medo, a gerente conta que faz de tudo para cumprir com seus deveres profissionais. “Vou sempre, mesmo que isso implique sofrimento”, conta. “Minha ambição é maior do que o meu medo.” Em relação às viagens a passeio, já não dá para dizer o mesmo. “Cheguei a recusar uma viagem a Portugal com a família do meu namorado e de visitar minha avó no Nordeste”, lembra ela. Da última vez que foi ver a avó, Sheila demorou três dias para chegar de carro. Trocar o transporte aéreo pelo terrestre é uma prática recorrente. Mesmo com a passagem em mãos, Sheila prefere ir de São Paulo ao Rio de Janeiro pela estrada. No ano passado, durante uma viagem para Orlando (EUA), outro episódio parecido aconteceu. Sheila voou até Miami e, de lá para Orlando, ela conseguiu convencer as três amigas a ir de carro para a cidade. “O que me dá medo é a probabilidade de acontecer comigo.”
Só de ouvir falar em avião, Sheila confessa ficar gelada. Esse medo de voar tomou proporções maiores depois de um acidente com um avião da companhia norte-americana TWA, em julho de 1996, que matou 230 pessoas. “Nessa época, além de ficar sensibilizada com a notícia, eu voltava da minha primeira viagem à Europa. Logo depois da decolagem do vôo Zurique–São Paulo, uma tempestade causou instabilidade na aeronave. Todos se entreolharam e eu comecei a ficar em pânico.”

calmantes – Quando precisa viajar, a ansiedade e o medo tomam conta de Sheila logo na manhã da viagem. “Nesse dia, só costumo tomar o café da manhã. Depois disso, não como mais nada.” Dentro da aeronave, comer, beber, ouvir música, ler revista, assistir a filmes e bater papo são atividades inexistentes durante a viagem. “Fico petrificada de medo, não consigo falar ou descontrair e não tiro o cinto por nada.” Para minimizar seu sofrimento, Sheila costuma apelar para os calmantes quando faz viagens internacionais. Ela ingere um comprimido três horas antes do embarque e outro poucos minutos antes de entrar no avião. Os vôos nacionais, por sua vez, são responsáveis pelo maior transtorno. “Como a viagem é rápida e sigo para reuniões depois, é impossível tomar calmante.” Resultado: o sofrimento aumenta.
Outro profissional que briga contra esse medo é Maurício Gomes, gerente-comercial da empresa norte-americana de tecnologia Progress. Ele não sabe explicar a fobia que sente na hora em que o avião pousa e decola. “Não tenho medo de avião, mas nesses momentos eu fico muito nervoso.” A mão sua, o frio sobe pela espinha, a barriga dói e a adrenalina toma conta do corpo. “Ninguém vê, não deixo transparecer, mas meu subconsciente sempre me lembra que esses são os momentos de maior risco de acidente”, conta ele. “A sensação é de total impotência. O avião fica na mão de uma pessoa que você nem sabe quem é.”
Para acentuar o problema, o executivo viaja de avião de três a quatro vezes por semana para visitar clientes em Porto Alegre, Salvador e Belo Horizonte. “Como eu sei que essa fobia é um fator limitante na vida de um profissional, viajo sempre que necessário.” Por mais paradoxal que pareça, Maurício é adepto do rapel, esporte radical que o faz ficar pendurado a alturas de até 100 metros. Mas essa é justamente uma faceta da fobia, conforme explica o psicólogo Alexandre Rivero, professor de psicologia do desenvolvimento da Universidade São Marcos e diretor da Clínica de Psicologia e Ressignificação Humana. Ele diz que, primeiramente, é necessário entender o significado da palavra fobia. “Fobia é um medo persistente, irracional e desproporcional”, define ele. “É uma forma de medo intensa em relação a um objeto específico.”

tragédias – Para evitar maior estresse durante as viagens, Gomes diz que sempre tenta encarar tudo com bom humor e uma oração antes da decolagem. “Tento trabalhar esse medo, mas o problema é que fico muito incomodado com esses acidentes aéreos.” Foi exatamente depois de uma dessas tragédias que seu medo cresceu. “Eu tinha um amigo de infância e três conhecidos da empresa naquele vôo da TAM que ia de São Paulo para o Rio (o acidente aconteceu em outubro de 1996 e matou 99 pessoas)”, recorda ele.
Diferentemente de Gomes, há casos de pessoas que quase perderam o emprego por causa da fobia de avião. Márcia Weiser, 27 anos, gerente de pré-vendas da Avaya Communications, conta que chegou a pedir demissão por medo de encarar um vôo. O episódio ocorreu na época em que ela trabalhava na Lucent Technologies, empresa que originou a Avaya, e para a qual teria de
fazer uma viagem de avião a trabalho. “Um dia antes da viagem, fiquei muito nervosa e, só de pensar em voltar a entrar no avião, cheguei a pedir demissão”, lembra ela.
Graças ao “chacoalhão” que levou do diretor-geral da empresa, que havia pedido para ela se acalmar e lembrar da carreira brilhante que teria pela frente, Márcia decidiu procurar ajuda. Depois de um tratamento que uniu terapia e antidepressivos, ela venceu o medo.
Hoje, a jovem profissional voa sem problemas e chega até a acalmar outros passageiros fóbicos. “Antes eu tinha vergonha de falar sobre o assunto, mas hoje sinto orgulho”, comemora. “Fico feliz porque a empresa foi legal comigo. No começo, eu escondia o medo e tentava trocar as viagens com um colega, mas daí a notícia vazou, se espalhou e acabei obtendo o apoio da chefia.”
As gêmeas Maria Sylvia e Maria de Lourdes Esteves de Medeiros, de 48 anos, levam vidas completamente diferentes, mas têm uma forte semelhança que está além da aparência: o medo de voar. Maria Sylvia é psicóloga e moradora de São Paulo, enquanto Maria de Lourdes é médica e vive em Araçatuba, no interior. O mais curioso é que, apesar da paúra, elas viajam há dez anos com toda a família para os Estados Unidos. O passeio de férias começa com as gêmeas tomando calmante na sala de embarque. “Começo a ficar atormentada 15 dias antes da viagem”, conta Maria Sylvia que, mesmo depois de dois anos de terapia, não conseguiu superar o medo. Ela suspeita que a origem do medo possa estar relacionada a uma viagem que fez quando seu filho tinha 3 meses de idade. A idéia de afastamento de certa forma pode ter-se associado ao medo de voar. Maria de Lourdes, por sua vez, conseguiu vencer algumas barreiras e hoje diz se controlar mais. “Já tive mais medo, mas ainda continuo não gostando de voar.”
O psicólogo Alexandre Rivero explica que, quando a fobia se manifesta, a pessoa acaba perdendo o controle da situação. Isso faz com que ela apresente sintomas como aceleração dos batimentos cardíacos, suor, secura da boca, tensão muscular e tremores. “Consideradas normais, essas reações visam a proteger o corpo do homem”, explica ele. “Essas mudanças são positivas mas, se você começar a sofrer isso cotidianamente, pode acabar desenvolvendo diabetes (ocasionada pelo aumento de glicose no sangue) e problemas no coração (taquicardia)”, alerta o psicólogo.
Toda essa mudança no metabolismo humano pode acontecer por várias razões. Segundo Rivero, uma delas está ligada à infância. “É uma espécie de crença disfuncional que acompanha o indivíduo desde cedo. Ele cresce ouvindo falar que avião é um meio perigoso”, explica ele. “Isso fica dormindo dentro dele e um dia o gatilho dispara.”
Outra possibilidade é a chamada psicodinâmica, na qual a fobia pode representar um símbolo. “O medo de avião pode, para algumas pessoas, estar relacionado a altura, liberdade e ascensão social.”
Para o psiquiatra e terapeuta Márcio Bastos Silveira (responsável pelo tratamento de Márcia Weiser), a fobia de voar pode estar ligada à claustrofobia, ao medo de sair do chão, entre outras possibilidades. “Traduzindo: fobia é uma expressão técnica que significa medo do medo.”

imagens – Para quem sofre desse problema, o psiquiatra sugere a busca de tratamento adequado assim que a pessoa começar a se sentir incomodada. “O tratamento ideal deve trabalhar com medicação e terapia”, explica. “As duas isoladas não fazem o efeito desejado.” Geralmente, o remédio adotado é um antidepressivo e o tempo de tratamento varia de seis meses a um ano.
Já o médico-psiquiatra do Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria (Amban) do Hospital das Clínicas, Tito Paes de Barros Neto, não trabalha com medicamentos para tratar a fobia. Terapia, exposição (enfrentar o medo) e exercícios mentais de des-
sensibilização são as melhores maneiras de superar o medo, segundo o médico. A última medida consiste em fazer com que o paciente mentalize imagens em que vai até a sala de embarque, depois até a escada da aeronave e até alçar vôo. Um trabalho semelhante ao que as mães fazem com crianças que têm medo do mar. Levam o filho até a beira, molham seus pezinhos e assim vai.
Quanto às causas que levam ao medo, Barros Neto acredita que uma educação equivocada, a genética (o médico ressalva que não há nada comprovado) e a aprendizagem por modelação (quando há cópia do comportamento) podem ser as principais explicações para a fobia de voar. “O curioso é que a maioria das pessoas com medo nunca voou ”, lembra.


De bike é pior

Transportes responsáveis pelo maior índice de acidentes

Rodoviário

38,70%

Barco

 0,78%

Bicicleta

 0,67%

Aeronáutico

 0,08%

Ferroviário

 0,03%




Instituto especializado

Criado com o objetivo de ajudar os passageiros com medo de voar, o Instituto de Psicologia e Pesquisa para o Medo de Voar (Condor) foi fundado em 1998 por profissionais da Varig acostumados a trabalhar no ar, como Rosana D’orio, psicóloga, comissária de vôo durante 19 anos e assessora da chefia dos comissários; Roseli Moreira, gerente
do centro de treinamento de comissários, e o piloto Emerson Sousa.
Reconhecido pelo Conselho Regional de Psicologia (SP), o instituto tem como objetivo desmitificar o medo de voar. “Trabalhamos o real e o imaginário da pessoa, fazendo com que ela entenda a parte técnica da aeronave e trabalhe o psicológico”, conta Roseli.
Durante os tratamentos – de 20 horas e 40 horas –, os profissionais do instituto abordam desde as funções de uma aeronave (identificam barulho, turbulência e tiram dúvidas) até a parte psicológica (com técnicas de relaxamento e um trabalho breve de psicoterapia). O tratamento é encerrado com um vôo até o Rio de Janeiro e o curso é oferecido em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.
No fim do tratamento, garantem os fundadores, 88% das pessoas se recuperam do medo de voar, sendo que metade desse número ainda conse-gue obter prazer. O instituto Condor já atendeu 200 pessoas.

Dicas para enfrentar
a fobia de avião:


- aprenda a enfrentar o objeto temido (a ansiedade pode aumentar, mas o medo vai diminuir)
- tente normalizar a respiração, que em momentos de nervoso fica curta e acelerada
- questione suas crenças
- construa um filme na sua cabeça (ensaie passo a passo toda a viagem, desde a chegada na sala de embarque até a aterrissagem)
- respire fundo e tente relaxar
- ouça música suave
- não divida o mérito de um vôo bem-sucedido com o calmante
- não trate a situação de forma catastrófica


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