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Casamento vs. Carreira
Françoise Terzian
Como conciliar as exigências da vida
profissional com o relacionamento afetivo
Imagine-se na seguinte situação: você é uma mulher bem-sucedida na
carreira, uma diretora de recursos humanos que já passou por
importantes empresas brasileiras e conseguiu superar diversos desafios
profissionais. A experiência é grande, mas a vontade de ter uma
posição internacional é maior ainda. Bem resolvida profissionalmente,
você ainda consegue, há 13 anos, conciliar com maestria a carreira e o
casamento. Sem filhos (por escolha de ambos), mas feliz com a relação
que construiu com o marido – um outro profissional da área que você
conheceu quando trabalhavam na mesma empresa e hoje é sócio de uma
consultoria de RH –, sua chance de experimentar uma posição
internacional finalmente aparece. Irrecusável, o convite para dirigir
o departamento de RH de uma grande multinacional em Paris só depende
do seu “sim” para se concretizar.
Diante de uma situação assim, qual seria sua decisão? Certamente,
muitos casais entrariam em crise, discutiriam, passariam dias de
angústia para decidir se o marido deveria deixar a sociedade na
consultoria e mudar-se com a mulher para a França ou se a mulher
deveria abrir mão de seu sonho e permanecer no Brasil.
Para Leni Hidalgo Nunes de Toledo, 45 anos, e Paulo Celso de Toledo
Júnior, 55 anos, personagens reais da história contada acima, a
decisão foi diferente. Graças à maturidade de ambos, decidiram seguir
suas respectivas carreiras sem abrir mão do casamento. Em novembro
passado, Leni mudou-se para Paris, onde assumiu o cargo de diretora de
RH da Food Ingredients, uma empresa do grupo Rhodia, enquanto Júnior
decidiu permanecer em São Paulo, cuidando da Konsult, consultoria
própria voltada para a área de RH.
chance – Satisfeita com a experiência de trabalhar e morar na França,
Leni conta que, além de ter se adaptado bem ao país, ela se sente
realizada profissionalmente. “Tudo o que aconteceu na minha profissão
foi além do que eu imaginava”, disse ela, durante as duas semanas de
férias que passou em São Paulo. Com o total apoio de Júnior, que a
incentivou a não perder a chance de experimentar uma posição
internacional, Leni é um exemplo de profissional bem-sucedida que tem
conseguido manter um casamento sem traumas, apesar da distância.
Mesmo com saudades, a executiva diz jamais ter pensado em largar tudo
para voltar correndo para o marido e para o país. “Temos uma relação
de amor e amizade, além do respeito pelo trabalho um do outro”,
comenta ela. Como o próprio casal gosta de definir, a relação nunca
foi de possessão e ciúmes, mas de confiança. Prova disso são as únicas
duas férias que eles conseguiram tirar juntos em 13 anos de casamento.
“As datas dificilmente coincidiam, mas nem por isso eu deixava de
viajar”, lembra Leni.
Mesmo com a distância e as cinco horas de diferença no fuso, o casal
se diz satisfeito com a escolha. Para suprir os momentos de saudade, a
cada dois ou três meses, ou ele vai para Paris ou ela vem para São
Paulo. “Os reencontros são muito gostosos”, conta Júnior. Para manter
o contato no dia-a-dia, o casal fala pelo telefone ou pela internet,
com a ajuda de uma webcam que captura e transmite as imagens de ambos.
Júnior conta que só se mudaria para Paris se tivesse um trabalho lá.
“O índice de desemprego está alto na França, eu já tenho 55 anos e
dois filhos do primeiro casamento”, justifica.
Outro fator interessante na relação do casal é a inexistência da
competição profissional. Atualmente ganhando mais do que o marido,
Leni diz que Júnior não se incomoda com isso. “Já no meu primeiro
casamento, o fato de eu ganhar mais do que ele, que também era da área
de RH, foi um problema.” Segundo Leni, este foi um dos motivos que
contribuiram para a separação.
Definitivamente, satisfazer a mulher (ou o marido) e o chefe,
cumprindo bem as tarefas do escritório e da vida a dois, parece ser um
dos maiores desafios do profissional do século 21. De acordo com Paulo
Kretly, gerente-geral da Franklin Covey Brazil, o equilíbrio de tempo
entre a carreira e a vida familiar tem tirado o sono de muitos
profissionais. Kretly faz a afirmação baseado em uma pesquisa
realizada há dois anos pela Fundação Dom Cabral. Na época, boa parte
dos 382 executivos de 282 empresas respondeu ser esta a maior
preocupação de suas vidas.
“Quem não consegue atingir o equilíbrio entre a vida pessoal e a
familiar geralmente não toma a melhor decisão no trabalho,
precipitando-se muitas vezes”, alerta o executivo. “Por outro lado,
quem chega no escritório com assuntos pessoais resolvidos produz muito
mais.”
prioridade – Para Kretly, nenhum outro sucesso na vida compensa o
fracasso no lar. “Mesmo passando 12 horas no escritório, a família
deve ser colocada como prioridade.” Ele observa, ainda, que é melhor
ter 10% de um marido 100% do que 100% de um marido 10%. “Quando você
está em casa, precisa estar lá não só de corpo, mas também
mentalmente.”
Por conta disso, ele conta que reserva uma noite por semana para sair
exclusivamente com a mulher. “Me programo para isso”, garante ele, que
está prestes a completar 20 anos de casado. “Também reservo uma noite
por mês para cada um dos meus três filhos, além de realizar reuniões
familiares semanais.”
Apesar das muitas dicas de Kretly, em tempos de concorrência feroz,
disputa pelo poder e alto índice de desemprego, muitas relações
pessoais acabam sendo submetidas a um segundo plano, caso não sejam
bem administradas. No caso de casais que queiram construir um futuro
estável e promissor, a psicóloga Maria da Conceição Uvaldo, do Serviço
de Orientação da Universidade de São Paulo (vinculado à Faculdade de
Psicologia), diz que ambos devem deixar de lado a maneira
individualista de pensar. “O casal precisa olhar pelos dois, caso
queira ter sucesso na vida profissional e pessoal”, ensina ela.
Esse tipo de dica pode ajudar nos casos em que uma das partes sente
ciúmes ou tristeza quando o cônjuge é promovido. “O clima ruim entre
uma e a outra parte acaba afastando o casal e, muitas vezes, resulta
na separação”, conta Maria, acostumada a atender uma série de casais.
“Quando a mulher ganha mais do que o homem, a situação freqüentemente
tende a piorar.”
Independentemente do nível social, Maria diz que faz parte da cultura
do brasileiro não aceitar muito bem uma melhor posição profissional da
mulher. “E quando está tudo bem, tem sempre aquele amigo-da-onça que
gosta de falar alguma coisa”, lembra ela. “Por isso, a carreira deve
ser encarada de forma familiar, na qual os outros não devem participar
das decisões.”
No caso de um dos dois ser transferido, a psicóloga sugere que o casal
avalie o que é melhor para os dois. Caso isso não seja feito, uma das
partes pode se sentir prejudicada, o que mais tarde afetará a relação.
igualdade – E quando o casal trabalha na mesma empresa? A psicóloga
considera que dividir a vida profissional não é necessariamente bom ou
ruim para o casal. “Este é um novo modelo de igualdade”, define.
Afinal, hoje as pessoas costumam passar mais horas no trabalho do que
em qualquer outro lugar.
Um exemplo de casal que se conheceu no trabalho e divide a vida
pessoal e profissional desde 1990 é o engenheiro eletricista Cássio
Corazza da Silva e a técnica de administração Luzia Aparecida Paixão
Silva. Por decisão do casal, os três anos de namoro foram mantidos em
segredo e os colegas de trabalho só descobriram quando o casamento foi
oficializado. “A surpresa, aliás, foi dupla, já que eu anunciei o
casamento e a gravidez”, recorda-se Luzia. “Decidimos não contar aos
colegas por não sabermos até onde iria nossa relação e também por
termos receio de as pessoas não saberem separar as questões pessoais
das profissionais.”
Do início do relacionamento ao anúncio do casamento, Luzia conta que
ela e Cássio agiram de forma tão discreta que os colegas só conseguiam
perceber uma grande afinidade entre os dois. Todo esse tempo de
conciliação de casamento e carreira tem sido, segundo o marido, uma
lição, na qual o aprendizado é diário. “Essa é uma coisa que tem que
ser aprendida. Você precisa separar o trabalho dos pro-blemas
familiares.”
Até hoje funcionários de uma empresa do setor de energia elétrica do
Estado de São Paulo, os dois atuam na mesma área, só que em ambientes
físicos diferentes. Silva conta que já aconteceu de o casal brigar em
casa e não ficar legal no escritório. “Se você precisa resolver alguma
questão do trabalho, o tratamento torna-se mais seco.” Mesmo assim,
ele diz que a situação no trabalho tem de se manter com a conduta
adequada. “Esse tipo de assunto nós só tratamos em casa, pois, além de
não ser profissional falar disso no escritório, precisamos de
privacidade para discutir assuntos pessoais.”
Outro exemplo de casal que também se conheceu no trabalho é Bruno
Bartijotto, advogado da Telefônica Celular, e Nayana Maia Peixoto,
gerente de controladoria da Telesp Celular.
A história dos dois começou em 1998, quando trabalhavam no mesmo andar
da também operadora de celular BCP. Depois de serem apresentados por
colegas durante o café, seguiram-se almoços e jantares, até que a
relação teve início. “Como a BCP era uma empresa nova e não sabíamos
qual era a sua política, resolvemos falar com o RH e os nossos
respectivos chefes para avisar que estávamos namorando”, recorda
Bartijotto. “Como não existia subordinação, eles disseram que não
havia inconveniente nenhum.”
referências – Apesar da “liberação da linha”, Nayana conta que ela e o
marido sempre tomaram muito cuidado para manter o profissionalismo e a
discrição dentro da empresa. “Em dois anos, chegamos a almoçar apenas
duas vezes juntos”, lembra ela.
O medo de perder o emprego, a atualização constante pela qual passam
os profissionais, a correria do dia-a-dia e as muitas horas passadas
dentro do escritório acabaram contribuindo para a sociedade perder
muitas das referên-cias familiares, segundo o psicólogo Alexandre
Rivero. “Rituais como comemorações de aniversário e almoços em
família estão sendo deixados de lado”, analisa. “Como os funcionários
passam horas do dia no trabalho, a empresa acaba assumindo o papel da
família.” É no ambiente de trabalho que as pessoas acabam convivendo,
formando relações afetivas, pedindo conselhos e conhecendo seus
parceiros. “Com o tempo, a empresa vira o sobrenome do funcionário.” É
o Miguel da Nestlé, a Regina da Shell. Rivero diz que a
valorização muito grande da carreira, em detrimento de outras fontes
de realização humana, acaba trazendo conseqüências para a família e
também para o profissional. Para ele, as pessoas bem-resolvidas
afetivamente conseguem fazer com que o trabalho flua melhor. “O amor
traz autoconfiança”, explica Rivero. “É por isso que muitas
empresas de ponta trabalham o indivíduo no plural. Viver um número
significativo de papéis sociais de maneira rica e realizadora é
importante para o homem. Ter horas para o lazer e para a vida afetiva
tor-
na o profissional segu-
ro de si e do trabalho a ser desenvolvido.”
Mesmo com o casal se empenhando para se satisfazer em ambos os
sentidos, conciliar a relação casamento–trabalho não é tarefa fácil.
Bete Nardi, gerente de marketing do Hospital 9 de Julho, que o diga.
Casada há sete anos com Luciano Nardi, diretor-geral da Chesterton no
Brasil, Bete é o tipo de esposa que parece levar na boa a dedicação do
marido à profissão. Com o fato de ele se dedicar intensivamente ao
trabalho durante toda a semana e ainda fazer um MBA em Marketing aos
sábados, só o domingo acaba sendo reservado para o casal se ver. “Isso
quando ele não tem que antecipar as viagens de trabalho”, diz ela.
Com os amigos e até com o marido, Bete brinca ao dizer que é “mãe
solteira”. Apesar dos pontos negativos que ela costuma apontar – a
ausência do marido é o principal deles –, a gerente diz que graças ao
esforço de ambos, a união construiu muita coisa. “Além disso, nosso
reencontro parece coisa de um casal de namorados, não temos desgaste
na relação e dificilmente caímos na rotina”, garante.
Bete diz compreender o marido, já que, ela mesma, durante os nove anos
em que trabalhou em outro hospital, também se dedicou bastante à
função. Hoje, com o filho de pouco mais de um ano, ela passou a ter
uma rotina mais estável no novo trabalho, apesar de o marido continuar
suas atividades em ritmo intenso. “Mesmo assim, ele telefona a toda
hora para saber como eu e o Gustavo (o filho) estamos.”
FOFOCAS – Para evitar injustiças e fofocas internas, muitas empresas
do mercado, como a IBM, a American Express, a SAP e a BCP adotaram uma
política na qual casais não podem ter uma relação de
chefe/subordinado. Na IBM Brasil, por exemplo, a diretora de RH,
Carmen Peres, diz que a única restrição da empresa acontece em casos
de um cônjuge se reportar ao outro em cargos de mesma linha. “Não
queremos que os outros funcionários enxerguem na situação uma forma de
favorecimento”, explica. Quando acontece uma situação assim, a IBM
transfere um dos dois para uma área que ofereça mais oportunidades ao
funcionário.
Cerca de 30% dos funcionários da IBM dos Estados Unidos são, segundo
Carmen, casados entre si. Lá, a mão-de-obra gira em torno de 130 mil
empregados. “Como muitas pessoas se conhecem na empresa, encaramos o
relacionamento entre funcionários com muita naturalidade.”
Para a empresa, o fato de contar com funcionários casados chega até a
ajudar no crescimento profissional. No caso de alguém ser transferido,
Carmem diz que a IBM até ajuda a outra parte a se recolocar na cidade
ou no país para onde o cônjuge recebeu o convite para trabalhar. “Se a
pessoa não conseguir a vaga, oferecemos a ela uma licença sem
vencimento para acompanhar o cônjuge.”
A American Express também diz ser a favor de parentes na empresa, mas
desde que eles não trabalhem na mesma área, que um não seja
subordinado do outro e que não ocupem funções-chave que influenciem na
administração do dia-a-dia da empresa. Salvador Evangelista,
vice-presidente de RH da American Express, conta que, se acontecer uma
situação parecida, a primeira atitude do RH é aconselhar uma
recolocação dentro da própria empresa. “Pensar em desligamento seria
uma opção extrema”, diz Evangelista, quando perguntado se o
funcionário em questão pode ser cortado.
saia justa – Se em grandes corporações a subordinação é evitada entre
casais, nas empresas próprias nem sempre existe essa restrição. Mesmo
assim, trabalhar na mesma empresa quando um dos cônjuges é o dono
acaba transformando a situação do casal numa verdadeira saia justa.
Por mais que tentem, Fabio Tavares, diretor-presidente da empresa de
consultoria Balance Consulting, e sua mulher Silvia Gonçalves
Ferreira, gerente de marketing da mesma companhia, nem sempre
conseguem separar os assuntos pessoais dos profissionais.
Tavares admite ficar de olho no jeito que a mulher se veste, se
comporta com outros funcionários e age. Se a saia está curta demais ou
se ela se porta de forma que ele considere carinhosa com outro homem,
Silvia pode estar certa de que mais tarde vem bronca. Ciumento, o
diretor da Balance diz que, se algum funcionário se insinuar para a
mulher dele, provavelmente o resultado da ousadia será a demissão.
“Isto representaria um afrontamento para mim”, diz Tavares.
Como o casal passa 24 horas por dia junto, Tavares admite que fica
difícil separar as coisas. “Em casa, também não conseguimos deixar de
falar sobre o trabalho.” Assim como o marido, Sílvia também faz
marcação cerrada dentro do escritório. “Se uma mulher muito bonita for
falar com ele, eu já fico por perto”, brinca ela. “Se ele sai para uma
reunião e demora mais do que o normal, eu já tento descobrir o que
aconteceu.”
Apesar do ciúme, o casal diz confiar extremamente um no outro. “A
Silvia é meu braço direito, a pessoa que coordena as áreas de
marketing, RH e compras”, declara ele. “Ela é os meus olhos quando não
estou aqui.”
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