Melhor Vida & Trabalho Outubro - 2002

 

         Casamento vs. Carreira
                                  Françoise Terzian

Como conciliar as exigências da vida profissional com o relacionamento afetivo  



Imagine-se na seguinte situação: você é uma mulher bem-sucedida na carreira, uma diretora de recursos humanos que já passou por importantes empresas brasileiras e conseguiu superar diversos desafios profissionais. A experiência é grande, mas a vontade de ter uma posição internacional é maior ainda. Bem resolvida profissionalmente, você ainda consegue, há 13 anos, conciliar com maestria a carreira e o casamento. Sem filhos (por escolha de ambos), mas feliz com a relação que construiu com o marido – um outro profissional da área que você conheceu quando trabalhavam na mesma empresa e hoje é sócio de uma consultoria de RH –, sua chance de experimentar uma posição internacional finalmente aparece. Irrecusável, o convite para dirigir o departamento de RH de uma grande multinacional em Paris só depende do seu “sim” para se concretizar.
Diante de uma situação assim, qual seria sua decisão? Certamente, muitos casais entrariam em crise, discutiriam, passariam dias de angústia para decidir se o marido deveria deixar a sociedade na consultoria e mudar-se com a mulher para a França ou se a mulher deveria abrir mão de seu sonho e permanecer no Brasil.
Para Leni Hidalgo Nunes de Toledo, 45 anos, e Paulo Celso de Toledo Júnior, 55 anos, personagens reais da história contada acima, a decisão foi diferente. Graças à maturidade de ambos, decidiram seguir suas respectivas carreiras sem abrir mão do casamento. Em novembro passado, Leni mudou-se para Paris, onde assumiu o cargo de diretora de RH da Food Ingredients, uma empresa do grupo Rhodia, enquanto Júnior decidiu permanecer em São Paulo, cuidando da Konsult, consultoria própria voltada para a área de RH.

chance – Satisfeita com a experiência de trabalhar e morar na França, Leni conta que, além de ter se adaptado bem ao país, ela se sente realizada profissionalmente. “Tudo o que aconteceu na minha profissão foi além do que eu imaginava”, disse ela, durante as duas semanas de férias que passou em São Paulo. Com o total apoio de Júnior, que a incentivou a não perder a chance de experimentar uma posição internacional, Leni é um exemplo de profissional bem-sucedida que tem conseguido manter um casamento sem traumas, apesar da distância.
Mesmo com saudades, a executiva diz jamais ter pensado em largar tudo para voltar correndo para o marido e para o país. “Temos uma relação de amor e amizade, além do respeito pelo trabalho um do outro”, comenta ela. Como o próprio casal gosta de definir, a relação nunca foi de possessão e ciúmes, mas de confiança. Prova disso são as únicas duas férias que eles conseguiram tirar juntos em 13 anos de casamento. “As datas dificilmente coincidiam, mas nem por isso eu deixava de viajar”, lembra Leni.
Mesmo com a distância e as cinco horas de diferença no fuso, o casal se diz satisfeito com a escolha. Para suprir os momentos de saudade, a cada dois ou três meses, ou ele vai para Paris ou ela vem para São Paulo. “Os reencontros são muito gostosos”, conta Júnior. Para manter o contato no dia-a-dia, o casal fala pelo telefone ou pela internet, com a ajuda de uma webcam que captura e transmite as imagens de ambos. Júnior conta que só se mudaria para Paris se tivesse um trabalho lá. “O índice de desemprego está alto na França, eu já tenho 55 anos e dois filhos do primeiro casamento”, justifica.
Outro fator interessante na relação do casal é a inexistência da competição profissional. Atualmente ganhando mais do que o marido, Leni diz que Júnior não se incomoda com isso. “Já no meu primeiro casamento, o fato de eu ganhar mais do que ele, que também era da área de RH, foi um problema.” Segundo Leni, este foi um dos motivos que contribuiram para a separação.
Definitivamente, satisfazer a mulher (ou o marido) e o chefe, cumprindo bem as tarefas do escritório e da vida a dois, parece ser um dos maiores desafios do profissional do século 21. De acordo com Paulo Kretly, gerente-geral da Franklin Covey Brazil, o equilíbrio de tempo entre a carreira e a vida familiar tem tirado o sono de muitos profissionais. Kretly faz a afirmação baseado em uma pesquisa realizada há dois anos pela Fundação Dom Cabral. Na época, boa parte dos 382 executivos de 282 empresas respondeu ser esta a maior preocupação de suas vidas.
“Quem não consegue atingir o equilíbrio entre a vida pessoal e a familiar geralmente não toma a melhor decisão no trabalho, precipitando-se muitas vezes”, alerta o executivo. “Por outro lado, quem chega no escritório com assuntos pessoais resolvidos produz muito mais.”

prioridade – Para Kretly, nenhum outro sucesso na vida compensa o fracasso no lar. “Mesmo passando 12 horas no escritório, a família deve ser colocada como prioridade.” Ele observa, ainda, que é melhor ter 10% de um marido 100% do que 100% de um marido 10%. “Quando você está em casa, precisa estar lá não só de corpo, mas também mentalmente.”
Por conta disso, ele conta que reserva uma noite por semana para sair exclusivamente com a mulher. “Me programo para isso”, garante ele, que está prestes a completar 20 anos de casado. “Também reservo uma noite por mês para cada um dos meus três filhos, além de realizar reuniões familiares semanais.”
Apesar das muitas dicas de Kretly, em tempos de concorrência feroz, disputa pelo poder e alto índice de desemprego, muitas relações pessoais acabam sendo submetidas a um segundo plano, caso não sejam bem administradas. No caso de casais que queiram construir um futuro estável e promissor, a psicóloga Maria da Conceição Uvaldo, do Serviço de Orientação da Universidade de São Paulo (vinculado à Faculdade de Psicologia), diz que ambos devem deixar de lado a maneira individualista de pensar. “O casal precisa olhar pelos dois, caso queira ter sucesso na vida profissional e pessoal”, ensina ela.
Esse tipo de dica pode ajudar nos casos em que uma das partes sente ciúmes ou tristeza quando o cônjuge é promovido. “O clima ruim entre uma e a outra parte acaba afastando o casal e, muitas vezes, resulta na separação”, conta Maria, acostumada a atender uma série de casais. “Quando a mulher ganha mais do que o homem, a situação freqüentemente tende a piorar.”
Independentemente do nível social, Maria diz que faz parte da cultura do brasileiro não aceitar muito bem uma melhor posição profissional da mulher. “E quando está tudo bem, tem sempre aquele amigo-da-onça que gosta de falar alguma coisa”, lembra ela. “Por isso, a carreira deve ser encarada de forma familiar, na qual os outros não devem participar das decisões.”
No caso de um dos dois ser transferido, a psicóloga sugere que o casal avalie o que é melhor para os dois. Caso isso não seja feito, uma das partes pode se sentir prejudicada, o que mais tarde afetará a relação.

igualdade – E quando o casal trabalha na mesma empresa? A psicóloga considera que dividir a vida profissional não é necessariamente bom ou ruim para o casal. “Este é um novo modelo de igualdade”, define. Afinal, hoje as pessoas costumam passar mais horas no trabalho do que em qualquer outro lugar.
Um exemplo de casal que se conheceu no trabalho e divide a vida pessoal e profissional desde 1990 é o engenheiro eletricista Cássio Corazza da Silva e a técnica de administração Luzia Aparecida Paixão Silva. Por decisão do casal, os três anos de namoro foram mantidos em segredo e os colegas de trabalho só descobriram quando o casamento foi oficializado. “A surpresa, aliás, foi dupla, já que eu anunciei o casamento e a gravidez”, recorda-se Luzia. “Decidimos não contar aos colegas por não sabermos até onde iria nossa relação e também por termos receio de as pessoas não saberem separar as questões pessoais das profissionais.”
Do início do relacionamento ao anúncio do casamento, Luzia conta que ela e Cássio agiram de forma tão discreta que os colegas só conseguiam perceber uma grande afinidade entre os dois. Todo esse tempo de conciliação de casamento e carreira tem sido, segundo o marido, uma lição, na qual o aprendizado é diário. “Essa é uma coisa que tem que ser aprendida. Você precisa separar o trabalho dos pro-blemas familiares.”
Até hoje funcionários de uma empresa do setor de energia elétrica do Estado de São Paulo, os dois atuam na mesma área, só que em ambientes físicos diferentes. Silva conta que já aconteceu de o casal brigar em casa e não ficar legal no escritório. “Se você precisa resolver alguma questão do trabalho, o tratamento torna-se mais seco.” Mesmo assim, ele diz que a situação no trabalho tem de se manter com a conduta adequada. “Esse tipo de assunto nós só tratamos em casa, pois, além de não ser profissional falar disso no escritório, precisamos de privacidade para discutir assuntos pessoais.”
Outro exemplo de casal que também se conheceu no trabalho é Bruno Bartijotto, advogado da Telefônica Celular, e Nayana Maia Peixoto, gerente de controladoria da Telesp Celular.
A história dos dois começou em 1998, quando trabalhavam no mesmo andar da também operadora de celular BCP. Depois de serem apresentados por colegas durante o café, seguiram-se almoços e jantares, até que a relação teve início. “Como a BCP era uma empresa nova e não sabíamos qual era a sua política, resolvemos falar com o RH e os nossos respectivos chefes para avisar que estávamos namorando”, recorda Bartijotto. “Como não existia subordinação, eles disseram que não havia inconveniente nenhum.”

referências – Apesar da “liberação da linha”, Nayana conta que ela e o marido sempre tomaram muito cuidado para manter o profissionalismo e a discrição dentro da empresa. “Em dois anos, chegamos a almoçar apenas duas vezes juntos”, lembra ela.
O medo de perder o emprego, a atualização constante pela qual passam os profissionais, a correria do dia-a-dia e as muitas horas passadas dentro do escritório acabaram contribuindo para a sociedade perder muitas das referên-cias familiares, segundo o psicólogo Alexandre Rivero. “Rituais como comemorações de aniversário e almoços em família estão sendo deixados de lado”, analisa. “Como os funcionários passam horas do dia no trabalho, a empresa acaba assumindo o papel da família.” É no ambiente de trabalho que as pessoas acabam convivendo, formando relações afetivas, pedindo conselhos e conhecendo seus parceiros. “Com o tempo, a empresa vira o sobrenome do funcionário.” É o Miguel da Nestlé, a Regina da Shell. Rivero diz que a valorização muito grande da carreira, em detrimento de outras fontes de realização humana, acaba trazendo conseqüências para a família e também para o profissional. Para ele, as pessoas bem-resolvidas afetivamente conseguem fazer com que o trabalho flua melhor. “O amor traz autoconfiança”, explica Rivero. “É por isso que muitas empresas de ponta trabalham o indivíduo no plural. Viver um número significativo de papéis sociais de maneira rica e realizadora é importante para o homem. Ter horas para o lazer e para a vida afetiva tor-
na o profissional segu-
ro de si e do trabalho a ser desenvolvido.”
Mesmo com o casal se empenhando para se satisfazer em ambos os sentidos, conciliar a relação casamento–trabalho não é tarefa fácil. Bete Nardi, gerente de marketing do Hospital 9 de Julho, que o diga. Casada há sete anos com Luciano Nardi, diretor-geral da Chesterton no Brasil, Bete é o tipo de esposa que parece levar na boa a dedicação do marido à profissão. Com o fato de ele se dedicar intensivamente ao trabalho durante toda a semana e ainda fazer um MBA em Marketing aos sábados, só o domingo acaba sendo reservado para o casal se ver. “Isso quando ele não tem que antecipar as viagens de trabalho”, diz ela.
Com os amigos e até com o marido, Bete brinca ao dizer que é “mãe solteira”. Apesar dos pontos negativos que ela costuma apontar – a ausência do marido é o principal deles –, a gerente diz que graças ao esforço de ambos, a união construiu muita coisa. “Além disso, nosso reencontro parece coisa de um casal de namorados, não temos desgaste na relação e dificilmente caímos na rotina”, garante.
Bete diz compreender o marido, já que, ela mesma, durante os nove anos em que trabalhou em outro hospital, também se dedicou bastante à função. Hoje, com o filho de pouco mais de um ano, ela passou a ter uma rotina mais estável no novo trabalho, apesar de o marido continuar suas atividades em ritmo intenso. “Mesmo assim, ele telefona a toda hora para saber como eu e o Gustavo (o filho) estamos.”

FOFOCAS – Para evitar injustiças e fofocas internas, muitas empresas do mercado, como a IBM, a American Express, a SAP e a BCP adotaram uma política na qual casais não podem ter uma relação de chefe/subordinado. Na IBM Brasil, por exemplo, a diretora de RH, Carmen Peres, diz que a única restrição da empresa acontece em casos de um cônjuge se reportar ao outro em cargos de mesma linha. “Não queremos que os outros funcionários enxerguem na situação uma forma de favorecimento”, explica. Quando acontece uma situação assim, a IBM transfere um dos dois para uma área que ofereça mais oportunidades ao funcionário.
Cerca de 30% dos funcionários da IBM dos Estados Unidos são, segundo Carmen, casados entre si. Lá, a mão-de-obra gira em torno de 130 mil empregados. “Como muitas pessoas se conhecem na empresa, encaramos o relacionamento entre funcionários com muita naturalidade.”
Para a empresa, o fato de contar com funcionários casados chega até a ajudar no crescimento profissional. No caso de alguém ser transferido, Carmem diz que a IBM até ajuda a outra parte a se recolocar na cidade ou no país para onde o cônjuge recebeu o convite para trabalhar. “Se a pessoa não conseguir a vaga, oferecemos a ela uma licença sem vencimento para acompanhar o cônjuge.”
A American Express também diz ser a favor de parentes na empresa, mas desde que eles não trabalhem na mesma área, que um não seja subordinado do outro e que não ocupem funções-chave que influenciem na administração do dia-a-dia da empresa. Salvador Evangelista, vice-presidente de RH da American Express, conta que, se acontecer uma situação parecida, a primeira atitude do RH é aconselhar uma recolocação dentro da própria empresa. “Pensar em desligamento seria uma opção extrema”, diz Evangelista, quando perguntado se o funcionário em questão pode ser cortado.

saia justa – Se em grandes corporações a subordinação é evitada entre casais, nas empresas próprias nem sempre existe essa restrição. Mesmo assim, trabalhar na mesma empresa quando um dos cônjuges é o dono acaba transformando a situação do casal numa verdadeira saia justa. Por mais que tentem, Fabio Tavares, diretor-presidente da empresa de consultoria Balance Consulting, e sua mulher Silvia Gonçalves Ferreira, gerente de marketing da mesma companhia, nem sempre conseguem separar os assuntos pessoais dos profissionais.
Tavares admite ficar de olho no jeito que a mulher se veste, se comporta com outros funcionários e age. Se a saia está curta demais ou se ela se porta de forma que ele considere carinhosa com outro homem, Silvia pode estar certa de que mais tarde vem bronca. Ciumento, o diretor da Balance diz que, se algum funcionário se insinuar para a mulher dele, provavelmente o resultado da ousadia será a demissão. “Isto representaria um afrontamento para mim”, diz Tavares.
Como o casal passa 24 horas por dia junto, Tavares admite que fica difícil separar as coisas. “Em casa, também não conseguimos deixar de falar sobre o trabalho.” Assim como o marido, Sílvia também faz marcação cerrada dentro do escritório. “Se uma mulher muito bonita for falar com ele, eu já fico por perto”, brinca ela. “Se ele sai para uma reunião e demora mais do que o normal, eu já tento descobrir o que aconteceu.”
Apesar do ciúme, o casal diz confiar extremamente um no outro. “A Silvia é meu braço direito, a pessoa que coordena as áreas de marketing, RH e compras”, declara ele. “Ela é os meus olhos quando não estou aqui.”