Política de civilização e problema mundial
Conferência apresentada na cidade do Porto em 1996
Edgar Morin
Diretor de pesquisa CNRS / França
As verdades exigentes não precisam de vitórias e resistem por resistir.
(Edgar Morin, Para sair do século XX, p. 360)
Agradeço o acolhimento que aqui me foi reservado; aprendi a apreciar a qualidade humana e todas as qualidades naturais da região transmontana.
Vou tentar falar, de uma maneira breve, do problema do desafio da complexidade e queria começar pela idéia de que toda e qualquer informação tem apenas um sentido em relação a uma situação, a um contexto. Se por exemplo eu disser "amo-te", esta palavra pode ser a expressão de um apaixonado sincero e deve ser tomada nesse sentido; mas pode ser também a farsa de um sedutor e nessa altura será uma mentira.
Pode ser ainda, numa peça de teatro a palavra de um herói e não do ator que desempenha o papel dessa personagem; o sentido das palavras muda portanto, necessariamente, segundo o contexto em que as empregamos; é por isso que, em lingüística, como todos sabemos, o sentido de um texto é esclarecido pelo seu contexto. Por exemplo: quando ouvimos as informações na televisão ou as lemos nos jornais, a palavra Sarajevo, a palavra Hezbollah, a palavra Kabul, não têm sentido se não as situarmos no seu contexto geográfico e histórico, o que quer dizer que, para conhecer, não podemos isolar uma palavra, uma informação; é necessário ligá-la a um contexto e mobilizar o nosso saber, a nossa cultura, para chegar a um conhecimento apropriado e oportuno da mesma.
O problema do conhecimento é um desafio porque só podemos conhecer, como dizia Pascal, as partes, se conhecermos o todo em que se situam e só podemos conhecer o todo, se conhecermos as partes que o compõem. Ora, hoje vivemos uma época de mundialização, todos os nossos grandes problemas deixaram de ser particulares para se tornar mundiais: o problema da energia e em especial o da bomba atómica, da disseminação nuclear, da ecologia que é o da nossa biosfera, o problema dos vírus como a Aids que imediatamente se mundializam. Todos os problemas se situam a um nível global e, por isso, devemos mobilizar a nossa atitude não só para os contextualizar mas ainda para os mundializar, para os globalizar e devemos em seguida partir do global para o particular e do particular para o global que é o sentido da frase de Pascal: "Não posso conhecer o todo se não conhecer particularmente as partes e não posso conhecer as partes se não conhecer o todo".
Deveríamos, portanto, ser animados por um princípio de pensamento que nos permitisse ligar as coisas que nos parecem separadas, umas em relação às outras.
Ora, o nosso sistema educativo privilegia a separação em vez de praticar a ligação. A organização do conhecimento, sob forma de disciplinas, seria útil se as disciplinas não estivessem fechadas sobre si mesmas, compartimentadas umas em relação às outras e assim, o conhecimento de um conjunto global que é o do homem, é um conhecimento parcelado. Se quisermos conhecer o espírito humano, podemos conhecê-lo através das ciências humanas como a psicologia mas o outro aspecto do espírito humano, que é o cérebro, orgão biológico, vai ser estudado pela biologia.
Vivemos numa realidade multidimensional visto que é simultaneamente econômica, psicológica, mitológica, sociológica, mas estudamos estas dimensões separadamente e não umas em relação com as outras. O princípio de separação torna-nos talvez mais lúcidos sobre uma pequena parte separada do seu contexto mas torna-nos cegos ou míopes sobre a relação entre a parte e o seu contexto. Além disso, o método experimental, método que permite tirar um "corpo" do seu meio natural e colocá-lo num meio artificial, é um método útil, mas tem os seus limites, pois não podemos estar separados do nosso meio ambiente; o conhecimento de nós próprios não é possível se nos isolarmos do meio em que vivemos. Não seríamos seres humanos, indivíduos humanos, se não tivéssemos crescido num ambiente cultural onde aprendemos a falar e não seríamos seres humanos vivos se não nos alimentássemos de elementos e alimentos provenientes do meio natural.
Por outro lado, durante muito tempo, a ciência ocidental foi uma ciência reducionista (tentou reduzir o conhecimento do conjunto ao conhecimento das partes que o constituem, pensando que podíamos conhecer o todo se conhecêssemos as partes); um tal conhecimento ignora o fenômeno mais importante que é o fenômeno que podemos qualificar de sistêmico, da palavra sistema, conjunto organizado de partes diferentes que produz qualidades que não existiriam se as partes estivessem isoladas umas das outras. É isto que podemos chamar "emergências". Por exemplo, nós somos a vida. Um ser humano é constituído por moléculas, moléculas químicas, moléculas de ácidos, ácidos nucleicos e aminoácidos. Nenhuma destas macromoléculas tem, por si só, as qualidades de dar vida; a organização viva, feita destas moléculas, como é uma organização complexa, tem um certo número de qualidades que emergem, qualidades de autoprodução, auto-reprodução, autodesenvolvimento, comunicação, movimento, etc.
Não podemos, portanto compreender o ser humano através dos elementos que o constituem. Se observarmos uma sociedade, verificaremos que nela há interações entre os indivíduos, mas essas interações formam um conjunto e a sociedade, como tal, é possuidora da língua, da cultura que transmite aos indivíduos; essas "emergências sociais" permitem aos indivíduos desenvolver-se como indivíduos. É necessário, por isso, um modo de conhecimento que permita compreender como as organizações, os sistemas, produzem qualidades que são as qualidades fundamentais do nosso mundo.
Falemos agora do fenômeno da auto-organização. O ser humano é um ser autônomo mas a sua autonomia depende do meio exterior. Se temos necessidade de nos alimentar, é porque o nosso organismo trabalha continuamente, degrada a sua energia e tem necessidade de a renovar extraindo-a do mundo exterior sob a forma, já organizada dos alimentos vegetais ou animais. Por isso, para ser autônomo, tenho de depender do meio exterior; para ser um espírito autônomo, tenho de depender da cultura de que alimento os meus conhecimentos, a minha faculdade de conhecimento e a minha faculdade de julgar. Assim, somos levados a pensar conjuntamente em duas noções que até agora se encontravam separadas porque durante muito tempo não podíamos compreender a autonomia do ponto de vista científico, visto que o conhecimento científico clássico só conhecia o determinismo. A autonomia só podia ser pensada do ponto de vista puramente metafísico, quer dizer, excluindo qualquer laço material. Por um lado tínhamos, portanto, uma ciência com dependência mas sem autonomia e por outro lado uma filosofia com autonomia mas sem conceber dependência. Ora, penso que o pensamento complexo é um pensamento que deve permitir ligar a autonomia e a dependência.
Penso que a nossa educação nos habituou demasiado a uma concepção linear da causalidade. Temos causas que produzem efeitos. Ora, eu penso que uma das idéias mais importantes que me parecem ter surgido nos últimos 50 anos foi a idéia de circularidade, idéia que foi expressa pela primeira vez por um especialista na área de cibernética. Para compreender a idéia de circularidade retroativa podemos imaginar um sistema de aquecimento central - há uma caldeira que alimenta os radiadores e depois, num compartimento, há uma termostato que, quando o compartimento atingiu a temperatura desejada, faz parar o funcionamento da caldeira; se a temperatura baixa, o termostato faz funcionar a caldeira de novo. Há, por isso, um sistema onde o efeito atua retroativamente sobre a causa. Deixamos de ter uma visão linear para a substituir por uma visão circular. Ficamos assim com a idéia de causalidade retroativa que permite compreender um fenômeno de autonomia térmica, o que quer dizer que, quando faz frio lá fora o compartimento fica quente e, paradoxalmente, podemos dizer que quanto mais frio faz lá fora mais quente fica o interior do compartimento. Esta autonomia provocada pela regulação (circularidade retroativa) é ela própria produzida por uma circularidade mais intensa chamada circularidade autoprodutiva. Em que consiste esta circularidade? Consiste no fato de produtos e efeitos serem necessários ao produtor e ao causador.
Tomemos dois exemplos: a vida e a sociedade. A vida é um sistema de reprodução que produz os indivíduos. Somos produtos da reprodução dos nossos pais. Mas, para que este processo de reprodução continue é necessário que nós próprios nos tornemos produtores e reprodutores de nossos filhos. Somos, portanto, produtos e produtores no processo da vida. Da mesma maneira, somos produtores da sociedade porque, sem indivíduos humanos, não existiria a sociedade mas, uma vez que a sociedade existe, com a sua cultura, os seus interditos, as suas normas, as suas leis, as suas regras, produz-nos por sua vez como indivíduos e, uma vez mais, somos produtos produtores.
Disse que produzimos a sociedade que nos produz e disse, ao mesmo tempo, uma coisa que não devemos esquecer: somos, não só, uma pequena parte de um todo que é o todo social, mas essse todo está no interior de nós próprios, o que quer dizer que temos as regras sociais, a linguagem social, a cultura e normas sociais no nosso interior. Segundo este princípio, não só a parte está no todo como o todo está na parte.
Isto acarreta conseqüências muito importantes porque, se quisermos julgar qualquer coisa, a nossa sociedade ou uma sociedade exterior, a maneira mais ingênua de o fazer é crer (pensar) que temos o ponto de vista verdadeiro e objetivo da sociedade porque ignoramos que a sociedade está em nós e ignoramos que somos uma pequena parte da sociedade que não pode situar-se do ponto de vista dominador para julgar a sociedade. É uma lição de prudência de método e de modéstia que nos dá esta concepção de pensamento.
Devo indicar, neste momento da minha exposição, que o pensamento complexo nos abre o caminho para compreender melhor os nossos problemas humanos. Em primeiro lugar, não devemos esquecer que somos seres trinitários, ou seja, somos triplos num só. Somos indivíduos, membros de uma espécie biológica chamada homo sapiens e somos ao mesmo tempo seres sociais. Temos estas três naturezas numa só. Penso que é importante sabê-lo porque, de uma maneira geral, o nosso modo de pensamento mais habitual nos torna difícil conceber um elo entre estas três naturezas e saber se existe uma unidade na humanidade ou uma diversidade, uma heterogeneidade e conseqüentemente uma ausência de unidade. É um tema polêmico a partir do séc. XVIII. Há quem diga que a natureza humana é una e que os chineses ou africanos têm uma natureza igual à nossa e por isso têm como nós amores, tristezas, alegrias, felicidades, o que quer dizer que somos todos os mesmos. Outros pensadores, como os culturalistas, dizem que somos diferentes de cultura para cultura e que não há verdadeira unidade humana.
Foi muitas vezes difícil fazer compreender que o "um" pode ser "múltiplo" e que o "múltiplo" é suscetível de unidade. Que, por exemplo, do ponto de vista do ser humano, há certamente uma unidade genética, que todos os seres humanos têm o mesmo patrimônio genético e que há uma unidade cerebral; por essa razão, todos os seres humanos têm as mesmas atitudes cerebrais fundamentais. É também certo que os seres humanos têm uma identidade profunda pelo fato de poderem desenvolver a sua nacionalidade e pelo fato de serem seres afetivos, capazes, todos eles, de sorrir, de rir e de chorar. É uma observação de um etólogo alemão sobre uma jovem surda, muda, cega de nascença, que demonstrou que, pelo fato de ela rir, chorar e sorrir, não tinha aprendido, através do seu meio cultural estas manifestações afetivas.
Há, portanto, esta unidade fundamental do ser humano; mas, ao mesmo tempo, sabemos que certas civilizações inibem lágrimas, outras permitem a sua expressão; que sorrimos em condições diferentes numas e noutras; o riso, as lágrimas, o sorriso são diferentemente modulados segundo as culturas mas devemos saber sobretudo que, a partir da mesma estrutura fundamental da linguagem, se criou uma diversidade inacreditável de línguas no decurso do desenvolvimento da espécie humana e que as culturas desenvolveram, cada uma delas, riquezas extraordinárias, o que quer dizer que o tesouro da humanidade é a sua diversidade; esta diversidade é não só compatível com a sua unidade fundamental mas produzida pelas possibilidades do ser humano.
Compreender a unidade e a diversidade é uma coisa muito importante hoje, visto estarmos num processo de mundialização que permite reconhecer a unidade de todos os problemas humanos para todos os seres humanos onde quer que estejam e que nos diz ao mesmo tempo que é preciso preservar a riqueza da humanidade que são as suas diversidades culturais; vemos, por exemplo, que as diversidades não são só as das nações mas que estão no interior das nações; cada província, cada região, tem a sua singularidade cultural que deve guardar ciosamente. Há, no mesmo sentido, este problema com o qual estive confrontado quando quis escrever meu livro "O homem e a morte", o problema da multidimensionalidade humana. A interrogação que coloquei a mim próprio desde o início foi a seguinte: O homem está, como todos os seres biológicos, submetido à morte; por isso, no domínio da morte, é semelhante a todos os outros seres vivos; mas o homem é o único ser vivo que acredita existir uma vida após a morte, que pratica ritos fúnebres, que tem uma mitologia da morte porque acredita que a morte existe, quer um renascimento, quer a sobrevivência de um fantasma, quer a ressurreição, etc. A realidade humana é, pois, por um lado, uma realidade biológica e, por outro lado, uma realidade autobiológica, quer dizer, uma realidade mitológica.
Um dos traços importantes do meu trabalho foi, pois, de deixar de subestimar o aspecto imaginário e o aspecto mitológico do ser humano. Uma coisa que me tinha deveras impressionado quando assisti a uma cerimônia de Candomblé no Brasil e na qual participei, foi constatar que, num momento determinado, os participantes, os crentes, desta cerimônia, invocam os espíritos ou deuses tais como Iemanjá; a um dado momento, um dos espíritos encarna num dos participantes e nesse momento o espírito fala através da boca desse mesmo participante. Além disso, pode existir a presença de vários espíritos. O que significa tudo isto? Significa que os deuses têm uma existência real; essa existência é-lhes conferida pela comunidade dos crentes, pela fé, pelo rito. Mas uma vez que o deus existe, é capaz de nos possuir e é essa a relação particular que nutrimos com os "deuses" ou o nosso "Deus", ou as nossas idéias.
Quer isso significar ainda que damos vida às nossas idéias e uma vez que lhe damos vida, são elas que nos indicam o nosso comportamento, que nos mandam matar por elas ou morrer por elas, o que significa que estes produtos são os nossos próprios produtores e que a realidade imaginária e a realidade mitológica são um aspecto fundamental da realidade humana.
Do mesmo modo, penso que devemos considerar a história humana de maneira complexa. Ora, de entre as maneiras não complexas de considerar a história humana, a primeira foi a de considerar que a história era uma sucessão de batalhas, de golpes de Estado, de mudanças de reino, de acontecimentos importantes, de acidentes, de guerras. Uma segunda maneira de a considerar, foi de julgar que os acidentes, as guerras, as mudanças de reino, eram acontecimentos superficiais e, na realidade, existia na história um movimento ascendente que era o movimento do progresso; quer dizer que as leis da história estavam escritas no decurso da humanidade e que, se surgissem acidentes, esses mesmos acidentes seriam provisórios.
Ora, eu penso que, primeiramente, é necessário unir estas duas concepções, a dos acidentes, das perturbações, aquilo que Shakespeare chamou "O barulho e o furor" e há, por outro lado, determinações, determinismos. Isto aplica-se também à história do Universo que começamos a conhecer como uma história que nasceu, talvez, de uma catástrofe gigantesca, catástrofe de que surgiu o mundo; o mundo, que se criou através de enormes destruições porque se pensa que desde o início a matéria provocou o genocídio da antimatéria, ou, pelo menos, essa antimatéria desapareceu. Em seguida, houve o choque das estrelas, a colisão das galáxias, explosões…
Ora, o mundo produz, por um lado galáxias, estrelas, ordem no céu e ao mesmo tempo forma-se por entre a desordem; da mesma maneira, a história da terra é uma história atormentada. Pensa-se que, na origem, foram os detritos de um sol anterior que explodiu que se aglomeraram, e que a partir daí se produziu um fenômeno de auto-organização da terra que, num dado momento, criou a primeira célula viva. Mas a verdadeira história da vida passou-se através de convulsões e catástrofes; houve um acidente no final da era primária em que 97% das espécies vivas dessa época desapareceram; houve o famoso acidente em que os dinossauros morreram e que parece ser a conseqüência de um meteorito conjugado com uma enorme explosão vulcânica. A história da nossa terra é acidental e foi através destes acidentes que houve esta extraordinária proliferação de formas vegetais e animais e que houve um ramo de um ramo, de um ramo… da evolução animal, surgiu o ser humano e finalmente a consciência humana.
O sentido da evolução não era o de produzir por todo lado a consciência. Foi o ramo de um ramo, de um ramo que produziu a humanidade. Somos portanto, um produto "desviado" da história do mundo; isto permite-nos compreender que a evolução não é qualquer coisa que avança frontalmente, majestosamente, como um rio, mas parte sempre de um "desvio" que começa e consegue impor-se, se torna uma grande tendência e triunfa.
Isto aplica-se à história das idéias; no início, podemos dizer que Moisés é um egípcio "desencaminhado" ou "desviado" que se afastou da sua religião quando fundou o judaísmo; o "desencaminhamento" de Jesus foi acrescido pelo de Paulo quando este disse não haver nem judeus nem gentios. Maomé, Karl Marx e Lutero foram seres "desencaminhados" ou "desviados"; certos "desencaminhados" enraizam-se e transformam-se em tendências fortes. Penso, por isso, que há, em primeiro lugar, este aspecto importante que deve tornar mais complexa a nossa visão da história e que nos deve permitir compreender a incerteza do nosso tempo visto sabermos hoje que não há progresso necessário e inelutável; compreendemos que todos os progressos adquiridos podem ser destruídos pelos nossos inimigos mais implacáveis, que somos, como sabemos, nós próprios, dado que hoje a humanidade é a maior inimiga da humanidade. Sabemos, atualmente, que o progresso deve ser regenerado; sabemos ainda que a barbárie constitui uma ameaça e vivemos mais do que nunca na incerteza porque ninguém pode adivinhar o que será o dia de amanhã. O nosso destino é, pois, incerto, e ninguém sabe qual o destino do cosmos. Devemos porém, poder situar-nos nesta incerteza. A nossa situação é, em virtude desta constatação, extremamente complexa porque somos, integralmente, filhos do Cosmos e estranhos a esse mesmo Cosmos. Poderia exemplificar com o organismo humano, mas vou tomar simplesmente o exemplo de um copo de vinho do Porto. Se pegarem num copo de vinho do Porto e o interrogarem, podem ter a certeza de que nesse vinho do Porto há partículas que se formaram nos primeiros segundos do Universo, ou seja, há cerca de sete a quinze millhões de anos; há também o hidrogênio, um dos primeiros elementos a ser formado no Universo e produtos do átomo do carbono, que se formou quando da existência do sol anterior ao nosso. No copo de vinho do Porto existe a formação destas macromoléculas que se juntaram na terra para dar origem à vida e há ainda a evolução do mundo vegetal, há também a evolução animal até o homem e a evolução técnica que permitiu ao ser humano extrair o sumo da uva e transformá-lo, através da fermentação, em vinho. Hoje, existem técnicas mais evoluídas, mais sofisticadas, da informática, que permitem controlar, nos depósitos, a fermentação desse vinho que vai transformar-se em vinho do Porto. Dito de outra maneira, num copo de vinho do Porto temos toda a história do Cosmos e, simultaneamente, a originalidade de uma bebida que apenas se encontra na região do Douro.
Somos filhos da natureza viva da terra e estrangeiros a nós próprios. Esta reflexão leva-nos a abandonar a idéia que considerava o ser humano como centro do mundo e mestre e dominador da natureza, ideia defendida pelos grandes filósofos ocidentais tais como Bacon, Descartes, Buffon, Karl Marx. Hoje, esta ambição parece-nos completamente irrisória porque vivemos num planeta minúsculo, satélite de um pequeno sol de segunda classe que faz parte de uma galáxia extremamente periférica e estamos por essa razão, perdidos no Universo.
Mas, se devemos abandonar a visão que faz do homem o centro do mundo, devemos salvaguardar a nossa visão humanista que nos ensina que é necessário salvar a humanidade e civilizar a terra. Abandonemos a missão de Prometeu e tornemo-nos seres terrestres, quer dizer, cidadãos da terra. Isso conduzir-nos-á à idéia por mim desenvolvida no livro Terra-Pátria; para a compreender é necessário refletir sobre a palavra "Pátria". A palavra "Pátria" significa três coisas: identidade comum, comunidade de origem, comunidade de destino e comunidade de idéias.
- Identidade comum, como já tive a ocasião de referir.
- Comunidade de origem e comunidade de destino segundo os dados do conhecimento da hominização e da pré-história: parece haver uma origem comum da humanidade - o continente Africano. É possível que o "Homo Sapiens" tenha partido de África e povoado o mundo como é possível que os antepassados do "Homo Sapiens", através do processo de mestiçagem, tenham suscitado na Europa, Ásia e África, o aparecimento da nossa espécie; de qualquer das maneiras, há esta comunidade de origem pertencente ao ramo particular da evolução dos seres vivos. Comunidade de destino - fazer parte de uma Pátria significa participar de um destino comum; ora, esse destino, relacionado com a pátria, é um destino que nos vem do passado. Vocês participam da Pátria Portuguesa porque aprendem a História de Portugal e tomam parte nas suas dificuldades, nos seus sofrimentos, nas suas grandezas e nas suas glórias; incorporam o destino comum dos vossos antepassados que querem continuar. A idéia de comunidade de destino terrestre é uma idéia recente. Vem da era planetária, quer dizer, do momento em que os fragmentos dispersos da humanidade começaram a encontrar-se; no início, de uma maneira extremamente violenta e brutal, através das conquistas e da colonização. Hoje, todos os seres humanos, apesar de viverem situações diferentes, têm os mesmos problemas fundamentais de vida e morte. Quer isto dizer que temos necessidade de nos salvaguardar de desastres que podem destruir o homem.
- Comunidade de idéias: esta noção faz-nos abandonar a alternativa banal que dizia que, no caso de sermos cosmopolitas não teríamos raízes e no caso da termos Pátria, teríamos uma Pátria singular fechada sobre ela própria.
A idéia de "Terra-Pátria" não nos desenraíza, pelo contrário, enraizamos no nosso destino terrestre e engloba e respeita todas as Pátrias. Podemos ser membros de várias Pátrias concêntricas. Como foi relembrado na intervenção que fez referência ao livro que escrevi sobre o meu pai (Vidal e os seus) sinto-me profundamente membro da Pátria Francesa, Mediterrânico, Europeu e Cidadão da Terra. Podemos viver diferentes Pátrias de maneira concêntrica em vez de negar uma, privilegiando outra.
Creio que o pensamento complexo que nos conduz a uma série de problemas fundamentais que são os do destino humano, hoje. Concluirei dizendo que o destino humano de hoje depende, sobretudo, da nossa capacidade de compreender os nossos problemas fundamentais, contextualizando-os, globalizando-os, interligando-os, e da nossa capacidade em enfrentar a incerteza e em encontrar os meios que nos permitam navegar num futuro incerto, erguendo ao alto a nossa coragem e a nossa esperança .