Técnica de resolução de problemas reduz violência paterna
NOVA YORK (Reuters Health) - Os pais classificados como sob risco de maltratar os filhos foram muito menos propensos a cometer violência depois de desenvolver habilidades para solucionar problemas e lidar com os desafios da paternidade, demonstrou um estudo.
A idéia é "fortalecer" os pais e ajudá-los a se ajudarem, explicou Daphne Blunt Bugental, professora de psicologia social e do desenvolvimento da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, e coordenadora do estudo -- cujos voluntários eram, na maioria, mulheres.
Nos Estados Unidos, são registrados anualmente cerca de 3 milhões de casos de suspeita de violência infantil, e mais de mil crianças morrem todos os anos em consequência de maus-tratos.
Segundo Bugental, os resultados deixam claro para as agências governamentais e para os legisladores que os programas de prevenção funcionam e apresentam uma boa relação custo/benefício. "Descobrimos que, para cada dólar investido em um programa desse tipo, existe uma economia de 4 dólares. As crianças maltratadas prematuramente geram um custo permanente para a sociedade", disse a especialista.
Publicado na edição de setembro do Journal of Family Psychology, o estudo avaliou a efetividade de um programa de prevenção. No trabalho, 96 famílias foram divididas em três grupos.
Uma parte das famílias recebeu visitas domésticas com um componente de resolução de problemas, enquanto outro grupo contou com visitas domésticas, mas sem o componente de resolução de problemas. Os pais de um terceiro grupo receberam informações de referência de serviços disponíveis na comunidade.
Os pesquisadores identificaram os participantes do estudo mais propensos a cometer violência contra os filhos por meio de um questionário que avaliou questões familiares -- como renda, trabalho e educação. Essa identificação ocorreu no final da gravidez ou logo após o nascimento da criança, e os pais participaram do estudo por um ano.
Durante o primeiro ano de vida dos bebês, 26 por cento das mães que receberam informações de referência foram violentas com as crianças, de acordo com os relatos delas mesmas. Entre as integrantes do grupo que recebeu visitas domiciliares sem o componente de resolução de problemas, esse índice foi de 23 por cento. Apenas 4 por cento dos pais que receberam treinamento para resolver problemas relataram ter praticado violência contra os filhos durante aquele ano.
O benefício do treinamento para resolver problemas foi particularmente importante entre as famílias com crianças que apresentavam risco médico.
"Ficamos satisfeitos que tenha funcionado bem", disse Bugental. "A principal mensagem para os pais é que existem muitos desafios na tarefa de cuidar dos filhos e que os pais têm a capacidade de, com um pouco de divisão na solução dos problemas, descobrir como vencer esses desafios."
Durante uma visita com componente de problema a ser resolvido, a equipe discutiu as preocupações apresentadas pelos pais, como por exemplo, o fato de o bebê evitar a mãe. Os profissionais pediram que a mãe opinasse sobre o fato e procuraram ajudá-la a compreender, por exemplo, que esse comportamento é mais comum entre as crianças prematuras e que isso não ocorre porque o bebê não gosta dela. Depois ajudaram as mulheres a aprender a responder a esse comportamento.
Embora quase todas as famílias estudadas fossem de origem latina, Bugental disse esperar resultados semelhantes em outras populações, pois a "capacidade de 'culpar' outras pessoas pelos problemas nas relações é distribuída igualitariamente em todos os setores da sociedade". A pesquisadora observou que as famílias mais ricas tendem a ser "menos receptivas" a visitas domésticas.
"Ninguém pode fazer isso sozinho. Por esse motivo, a idéia é aprender a usar da melhor maneira possível o que acontece e aprender a abordar agências, médicos, professores, entre outros, para conseguir o que é necessário para eles próprios e para suas famílias", disse Bugental.
Fonte: The Journal of Family Psychology 2002;16:243-258.